Estudo com colírio experimental ajuda ratos cegos a enxergar novamente
Os resultados obtidos em experimentos com ratos cegos são promissores e podem ajudar a criar tratamentos futuros para humanos
Pesquisadores espanhóis conseguiram restaurar a visão de ratos com degeneração da retina por meio do uso de um colírio experimental. A descoberta é promissora e pode ajudar a criar tratamentos futuros para humanos. O estudo liderado pelo Instituto de Bioengenharia da Catalunha (IBEC) teve os resultados publicados no Journal of the American Chemical Society (JACS) em 15 de julho.
Em casos de degeneração dos fotorreceptores – principal causadora de vários tipos de cegueira, como a degeneração da retina –, as células fotorreceptoras, responsáveis por detectar a luz que atinge o corpo, se deterioram e morrem gradualmente. Por outro lado, boa parte do sistema de circuito neural profundo na retina pode continuar intacto e funcionando.
O tratamento desenvolvido pelos pesquisadores atua justamente para voltar a criar a ligação entre a parte perdida e a que ainda está funcionando. Para isso, eles criaram pequenas moléculas ativadas pela luz, que foram projetadas com o objetivo de substituir parte da função das células fotorreceptoras.
Colírio restaura visão em ratos cegos
A família de pequenas moléculas criada pelos pesquisadores se chama prosthe6. O objetivo delas é atingir as células bipolares ON, os neurônios da retina normalmente responsáveis por receber as informações vindas dos fotorreceptores.
Em um primeiro teste, as moléculas restauraram os movimentos sacádicos dos olhos, um reflexo ligado à percepção visual, de larvas de peixe-zebra cegas. Posteriormente, o experimento foi feito com ratos com degeneração da retina.
Naturalmente, os ratos preferem ambientes mais escuros e evitam locais muito iluminados. Porém, camundongos deficientes visuais perdem a capacidade de distinção entre claro e escuro.
Ao receberem as moléculas, os animais cegos voltaram a preferir, de forma espontânea e sem nenhum treinamento, as áreas escuras, evidenciando que a capacidade de detecção da luz e utilização de informação visual para guiar suas ações haviam retornado.
“Essas moléculas não curam a cegueira, porque não atuam na causa da degeneração dos fotorreceptores. Mas são notavelmente eficazes na restauração da visão, e o fazem usando uma abordagem muito simples e potencialmente amigável para o paciente”, explica o colíder do estudo Pau Gorostiza em comunicado.
Atualmente, casos de degeneração da retina possuem duas abordagens: terapia gênica, limitada a pacientes com mutações específicas; e próteses retinianas eletrônicas, mais caras e invasivas.
A restauração de visão ocorreu tanto após a injeção intraocular quanto após ser aplicada em forma de colírio. O tratamento funcionou até mesmo em ambientes com menos intensidade de luminosidade, como ocorrem em ambientes internos ou dias nublados, por exemplo.
Depois dos resultados obtidos, os pesquisadores agora estudarão a segurança e a formulação das moléculas para obter um tratamento que faça a função visual restaurada durar mais tempo. Caso demonstre ser segura, a nova abordagem pode virar uma terapia para humanos com deficiência visual.
Jorge Agle
METRÓPOLES
