PF suspeita de “lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção” de Flávio Bolsonaro no caso Dark Horse

12/09/2026 05h21 - Atualizado há 1 hora

Ministro André Mendonça autoriza inquérito sigiloso para apurar financiamento de filme sobre Jair Bolsonaro com recursos do Banco Master

Cb image default

Crédito: Reprodução I Divulgação

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um procedimento investigatório sigiloso para apurar a conduta do senador e candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, no financiamento do filme “Dark Horse” — produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro (PL). A apuração foca nos supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos.

A decisão de instaurar o inquérito em separado foi proferida por Mendonça em julho e tornou-se pública após a queda do sigilo de documentos do chamado “caso Master”. Embora o despacho autorizativo do ministro esteja anexado aos autos do inquérito principal do Banco Master, a investigação individualizada direcionada a Flávio Bolsonaro tramita sob segredo de Justiça, o que indica a existência de diligências em andamento pela Polícia Federal (PF).

A abertura da apuração formal atendeu a um pedido expresso da autoridade policial e contou com a manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). No texto da decisão transcrita no processo, o relator destacou a solicitação encaminhada pelos investigadores:

“A Polícia Federal requer a instauração de PET sigilosa em apartado, vinculada ao INQ 5026, para apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos, que teriam sido praticados, em tese, pelo Senador da República Flávio Nantes Bolsonaro, no contexto de financiamento para a produção de obra cinematográfica denominada Dark Horse junto ao Banco Master do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro (…) Autorizo, nos termos do artigo 21, inciso XV, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, a instauração de procedimento investigatório vinculado ao INQ 5026 para apuração da hipótese criminal delineada pela autoridade policial”, registrou o ministro André Mendonça.

Pedidos de verba e repasses milionários

De acordo com mensagens reveladas pelo portal Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro solicitou R$ 131 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a execução da obra cinematográfica. Planilhas apreendidas pelos agentes federais no curso das investigações revelam que, do montante solicitado, cerca de R$ 60 milhões foram efetivamente pagos.

Em agenda de campanha eleitoral realizada no estado de Roraima, o parlamentar voltou a rebatê-lo e negou a existência de qualquer ilegalidade ou uso de verba pública na obra. “Não há um centavo de dinheiro público. Pode revirar do avesso”, afirmou o senador.

Apesar das declarações da defesa, a prestação de contas integral do filme jamais foi apresentada publicamente. A produtora responsável pela obra apresentou à Justiça apenas o demonstrativo de gastos realizados, contudo os detalhes sobre a captação e origem do financiamento — operacionalizado por meio do fundo Heavengate, sediado nos Estados Unidos — permanecem desconhecidos.

As frentes de investigação no STF

As apurações relativas ao financiamento do filme “Dark Horse” desdobram-se em duas linhas principais dentro do Supremo Tribunal Federal:

Operações do Banco Master e offshores

Sob a relatoria do ministro André Mendonça, a investigação busca esclarecer se os capitais de Daniel Vorcaro — investigado por fraudes milionárias na gestão do Banco Master — foram repassados para a produtora do filme por meio do fundo Heavengate, em solo norte-americano. A Polícia Federal apura, ainda, se parte dessas verbas foi utilizada para custear despesas pessoais no exterior do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que reside nos Estados Unidos.

Nessa mesma frente, o ministro Mendonça homologou a delação premiada do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Proprietário da empresa Entre Investimentos e Participações, o empresário confirmou à Procuradoria-Geral da República ter efetuado sete transferências bancárias para o fundo Heavengate ao longo do ano passado, totalizando US$ 12,3 milhões (aproximadamente R$ 69 milhões no câmbio da época), cumprindo ordens de Vorcaro.

Suposto desvio de emendas parlamentares

Em outro braço da apuração, sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, a PF deflagrou operações focadas no suposto uso irregular de emendas orçamentárias. A ação ostensiva mirou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama, proprietária da produtora Go Up, responsável pela elaboração da obra.

Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares em 2024 ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Gama. Os repasses financeiros ocorreram entre os meses de fevereiro e outubro de 2025. A suspeita dos investigadores é que a verba pública, após transitar por uma rede de empresas subcontratadas, tenha sido desviada para custear a produção do longa-metragem.

Segundo nota divulgada pela Polícia Federal, os elementos colhidos indicam a formação de uma organização criminosa composta por agentes públicos e privados para direcionar recursos públicos a empresas sem a comprovação da prestação efetiva dos serviços. “Levantamentos financeiros identificaram, ainda, movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado”, informou a corporação, que apura a prática de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes em licitações.

Guilherme Levorato

BRASIL 247