Nunes Marques e Mendonça se afastam de Flávio Bolsonaro após carta golpista: “perdeu o bom senso”

30/10/2026 05h28 - Atualizado há 1 hora

Ministros do TSE tentam se desvincular do senador após ataques ao resultado das eleições e reafirmam a legitimidade da vitória de Lula

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Crédito: Luiz Roberto/TSE

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, e o vice-presidente da Corte, André Mendonça, buscam se distanciar do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de uma carta golpista na qual o candidato derrotado questiona o resultado das eleições presidenciais de 2026. Os dois magistrados, considerados politicamente mais próximos do campo bolsonarista, teriam manifestado a auxiliares a avaliação de que o senador perdeu o bom senso ao insistir em acusações infundadas contra o processo eleitoral. As informações são da Folha de São Paulo.

A reação ocorre depois que o senador divulgou, na quarta-feira (28), um documento em que inicialmente se autoproclamava “verdadeiro presidente do Brasil”. Posteriormente, a expressão foi substituída por “líder do Brasil”, mas o texto manteve alegações falsas sobre a eleição que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A iniciativa de Flávio também provocou críticas entre outros integrantes do tribunal. Ministros considerados mais alinhados ao governo Lula classificaram a carta como um movimento absurdo, que deveria ser ignorado pela Justiça Eleitoral. Dois dos quatro magistrados desse grupo avaliaram que o senador procurou produzir instabilidade política por meio de uma narrativa conspiratória baseada em informações falsas.

Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvido pela Folha também desqualificou o documento. Segundo ele, o uso de um brasão incorreto, acompanhado da inscrição “Estados Unidos do Brazil (sic)”, evidencia a falta de seriedade da iniciativa e demonstra que Flávio não estava preparado para assumir a Presidência da República.

Kassio Nunes Marques reafirma legitimidade da vitória de Lula

Na noite de quarta-feira (28), poucas horas depois da divulgação da carta, Kassio Nunes Marques publicou uma nota em defesa da integridade do processo eleitoral. Embora não tenha mencionado Flávio Bolsonaro nominalmente, o presidente do TSE reafirmou o compromisso da instituição “com a vontade soberana do eleitorado, que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes”.

O magistrado também ressaltou que as eleições “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”. Segundo a manifestação, o pleito foi entregue “com segurança”.

A declaração pública reforça a posição que Kassio já havia transmitido reservadamente a colegas do tribunal após a proclamação oficial do resultado do segundo turno. Conforme a Folha, o ministro assegurou que não daria espaço às reclamações da campanha de Flávio Bolsonaro, que se recusou a reconhecer a derrota para Lula.

O presidente do TSE também pretende conversar com o presidente do STF, Edson Fachin, para estabelecer uma atuação coordenada diante das tentativas de contestação do resultado eleitoral. A intenção é impedir que prosperem iniciativas judiciais destinadas a colocar em dúvida a validade das eleições presidenciais de 2026.

Apesar da repercussão política da carta, os ministros do TSE evitaram comentar publicamente o episódio durante a sessão plenária desta quinta-feira (29), a primeira realizada após a divulgação do documento. Os magistrados deram continuidade ao julgamento dos processos previstos na pauta, sem mencionar a manifestação do senador.

Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento após fugir para os Estados Unidos

O distanciamento dos integrantes do TSE ocorre em meio ao crescente isolamento político de Flávio Bolsonaro. Após a derrota presidencial, o senador deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos, apesar de ter afirmado anteriormente que não fugiria do país.

A saída ocorreu depois de uma operação de despiste e surpreendeu integrantes de seu próprio grupo político. Aliados que participaram diretamente da campanha passaram a se afastar do senador diante da recusa em reconhecer o resultado das urnas e da divulgação da carta golpista.

Entre eles está o senador Rogério Marinho (PL-RN), responsável pela coordenação da campanha presidencial de Flávio. Marinho declarou que nem ele nem o PL possuem elementos para afirmar que houve fraude nas eleições, contrariando a narrativa adotada pelo candidato derrotado.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também defendeu o reconhecimento da vitória de Lula. Ao comentar o cenário político após o segundo turno, afirmou que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.

As manifestações evidenciam a dificuldade de Flávio em obter respaldo até mesmo entre lideranças que estiveram ao seu lado durante a disputa presidencial. Enquanto o senador insiste em questionar a legitimidade do pleito, figuras importantes da direita passaram a defender o respeito ao resultado oficial.

Advogada de Flávio também decide se afastar

O isolamento do senador se estende à equipe jurídica que atuou em sua campanha. De acordo com a reportagem, a fuga para os Estados Unidos teria ocorrido sem o conhecimento prévio dos advogados responsáveis por sua defesa eleitoral.

A advogada Maria Claudia Bucchianeri, que representou Flávio Bolsonaro em processos no TSE, já comunicou a um interlocutor que não pretende apresentar novas ações judiciais em nome do senador.

Segundo o relato, Bucchianeri considera que seu compromisso profissional estava vinculado à campanha presidencial, encerrada em 25 de outubro, data do segundo turno.

Otávio Rosso

BRASIL 247