Judias e Judeus Pela Democracia declaram apoio a Lula após anúncio de Lottenberg como ministro de Flávio Bolsonaro
Coletivo antecipa divulgação de manifesto em favor da chapa Lula-Alckmin para deixar claro que presidente da Conib não representa a comunidade judaica ao se aliar ao bolsonarismo
Um grupo de judias e judeus divulgou no sábado (29) um manifesto público declarando apoio à reeleição da chapa formada pelo presidente Lula (PT) e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), segundo Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. A mobilização, que alcançou 1.120 assinaturas até a manhã desta segunda-feira (31), teve sua publicação antecipada em reação direta ao anúncio feito na semana passada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em entrevista à TV Globo, o parlamentar afirmou que o médico oftalmologista Cláudio Lottenberg será seu ministro da Saúde caso ele vença a disputa pela Presidência da República em outubro.
Cláudio Lottenberg preside o conselho deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein — instituição que administra o Hospital Israelita Albert Einstein — e ocupa também a presidência da Confederação Israelita do Brasil (Conib). A petição pública vinha sendo debatida há algumas semanas pelo grupo “Judias e Judeus Pela Democracia” e não tinha prazo estipulado para vir a público. No entanto, o coletivo decidiu acelerar o lançamento da carta de apoio para marcar posição e enfatizar que Lottenberg não fala em nome da comunidade judaica ao se associar ao bolsonarismo.
Por outro lado, interlocutores e apoiadores do médico dizem que a escolha feita por Flávio Bolsonaro não tem relação com aspectos religiosos, justificando-se unicamente pela capacidade técnica e pela trajetória do presidente do Einstein na área da saúde.
No texto da petição voltado à coleta de assinaturas em favor da chapa Lula-Alckmin, os integrantes do grupo explicitam o motivo da antecipação do documento: “depois de Flávio Bolsonaro anunciar Cláudio Lottenberg como ministro da Saúde — e nós já conhecemos bem essa história —, resolvemos adiantar e tornar pública a posição de muitos judeus e judias de esquerda: não estamos associados ao bolsonarismo”.
A manifestação reforça a necessidade de defesa das instituições democráticas e de rechaçar discursos extremistas no cenário político nacional. “Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas”, aponta o manifesto.
O documento é assinado por diversos expoentes do meio acadêmico, jurídico, cultural e ambientalista. Entre os signatários estão o ex-ministro e ambientalista Carlos Minc Baumfeld, o advogado Fabio Tofic Simantob, a historiadora Lilia Katri Moritz Schwarcz, a historiadora Iris Kantor, o músico Jaques Morelenbaum, a psicóloga Lia Vainer Schucman, além de Diego Lajst, Manuela Ligeti Carneiro da Cunha, Natalia Timerman, a urbanista Raquel Rolnik e a escritora Tatiana Salem Levy.
Confira abaixo a íntegra da declaração divulgada pelo grupo de judias e judeus em apoio à candidatura de Lula e Alckmin:
“Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas.
Não podemos normalizar discursos como ‘polícia atira para matar’, nem propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos sendo defendidas em rede pública como parte natural do debate democrático. Uma democracia não pode tratar como apenas mais uma opinião aquilo que ameaça a própria democracia, transforma adversários em inimigos e faz da violência um projeto político.
Assinamos este manifesto também em lembrança de nossas histórias. Sabemos o que significa uma sociedade aceitar pouco a pouco o autoritarismo, a perseguição e a construção de grupos humanos como inimigos. Por isso, nossa memória nos convoca à defesa dos direitos humanos, das lutas sociais, do SUS, da igualdade racial, da justiça social e de todas as conquistas democráticas que permitem que diferentes grupos lutem por seus direitos.
Nosso apoio a Lula e Alckmin não significa acreditar que a democracia brasileira esteja pronta, nem que todas as transformações que desejamos estejam representadas nessa chapa. Significa reconhecer que há uma diferença fundamental entre lutar para ampliar direitos dentro de uma democracia e permitir que avancem projetos que ameaçam as próprias condições dessa luta. Defendemos uma sociedade em que nossas diferenças não sejam transformadas em ódio, perseguição ou inimigos a serem eliminados. Em 2026, estamos com Lula e Alckmin em defesa da democracia e da possibilidade de continuarmos lutando por ela“.
Guilherme Levorato
BRASIL 247
