Estado de S. Paulo chama Flávio Bolsonaro de “mentiroso crônico” após novas revelações sobre Dark Horse
Editorial afirma que candidato do PL é “cronicamente incapaz de dizer a verdade” e aponta sucessivas contradições nas explicações sobre dinheiro de Daniel Vorcaro
O jornal O Estado de S. Paulo fez um duro ataque à credibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) e afirmou que o candidato à Presidência da República demonstra ser “cronicamente incapaz de dizer a verdade”. Em editorial intitulado “Cronicamente mendaz”, o veículo relaciona a avaliação às sucessivas versões apresentadas pelo senador sobre os recursos repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
O editorial do Estadão foi publicado após a revista piauí revelar que Vorcaro transferiu US$ 1,666 milhão ao Havengate Development Fund em setembro de 2025, quatro meses depois da data que Flávio havia apontado como a do último pagamento do banqueiro. O fundo estadunidense administrava recursos destinados à produção do filme. A transferência consta de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A existência do pagamento também foi posteriormente noticiada por outros veículos.
Para o Estadão, o episódio não representa uma contradição isolada. O jornal sustenta que se tornou recorrente Flávio apresentar uma versão sobre sua relação com Vorcaro e posteriormente precisar revê-la diante do aparecimento de novas informações.
“Já se perdeu a conta de quantas vezes o candidato declara algo sobre esse assunto e é obrigado a se desdizer quando surgem evidências de que ele não falou a verdade”, afirma o editorial.
Na sequência, o jornal associa diretamente esse comportamento à disputa pelo Palácio do Planalto: “Definitivamente, não é o comportamento que se espera de um postulante à Presidência da República, que por definição deve ser honesto”.
O Estadão eleva ainda mais o tom ao sustentar que, independentemente da repercussão eleitoral das contradições, a Presidência não deveria ser ocupada por alguém que, segundo sua avaliação, demonstra incapacidade reiterada de falar a verdade.
“Pode até ser que haja eleitores para os quais isso não importa, e as pesquisas de intenção de voto mostram que talvez eles sejam muitos, mas idealmente não se pode esperar que o governo do País seja entregue a alguém que é cronicamente incapaz de dizer a verdade”, diz o texto.
Estadão compara Flávio a Jair Bolsonaro
O editorial também estende suas críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e afirma que o comportamento atribuído ao senador reproduziria uma característica do pai.
“Nisso, aliás, puxou ao pai, que mentiu a mais não poder para chegar à Presidência e, depois, para governar. Deu no que deu”, afirma o jornal.
Segundo o Estadão, a conduta de Flávio desde que sua relação com Vorcaro veio à tona segue um padrão marcado pela apresentação gradual de informações somente após o surgimento de novas evidências.
“Desde que sua relação com Vorcaro veio a público, Flávio não esclarece os fatos espontaneamente. Tem seguido um rito: nega enquanto pode e só admite o que uma nova prova o obriga a reconhecer”, afirma o editorial.
As críticas encontram como pano de fundo uma sequência de declarações posteriormente confrontadas por novas informações. Flávio havia dito, por exemplo, que os pagamentos de Vorcaro para Dark Horse haviam terminado em maio de 2025. O relatório do Coaf revelado pela piauí, entretanto, registra uma transferência de US$ 1,666 milhão em 16 de setembro daquele ano. Com ela, os repasses identificados passaram a somar US$ 12,3 milhões.
Há ainda uma conversa de outubro de 2025 na qual o publicitário Thiago Miranda pergunta a Vorcaro se ele conseguiria liberar parcelas do filme. O banqueiro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Posteriormente, a produtora Go Up afirmou que houve uma tentativa de nova transferência naquele mês, mas que a operação não foi concluída.
“Dinheiro privado” vira alvo de críticas
Outro argumento de Flávio contestado pelo Estadão é o de que os recursos destinados à produção eram “dinheiro privado” empregado em “um filme privado”.
O editorial argumenta que a origem dos recursos associados a Vorcaro não pode ser ignorada diante das investigações relacionadas ao Banco Master. O texto menciona suspeitas envolvendo empréstimos descontados de aposentados, recursos de regimes previdenciários de Estados e municípios e operações realizadas com o Banco de Brasília (BRB).
Para o jornal, portanto, classificar simplesmente os valores como privados não elimina a necessidade de esclarecer sua procedência e seu destino.
O Estadão também lembra que Flávio tratou Vorcaro como “irmão” e critica a tentativa de reduzir o episódio a uma relação comercial privada.
PF investiga destino dos recursos
As dúvidas em torno do financiamento de Dark Horse são objeto de investigação. A Polícia Federal apura possíveis irregularidades nos recursos enviados para os Estados Unidos e se todo o dinheiro efetivamente chegou à produção cinematográfica. Um dos inquéritos sobre o caso no Supremo Tribunal Federal é relatado pelo ministro André Mendonça.
Também está sob investigação a hipótese de parte dos recursos ter servido para outras finalidades. Até o momento, porém, não há evidência de que dinheiro destinado ao filme tenha sido desviado para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, segundo a própria reportagem da piauí.
Diante das novas revelações, Flávio tem sustentado que cabe à produtora explicar os pagamentos. Questionado no Senado, declarou: “Essas informações não tenho como saber, porque não trato disso. Tem que perguntar para a produtora”.
O Estadão rejeita essa transferência de responsabilidade porque, segundo o editorial, foi o próprio senador quem negociou os recursos e cobrou Vorcaro pelos pagamentos.
“Ora, foi ele quem pediu o dinheiro a Vorcaro, foi ele que cobrou os pagamentos e, portanto, é ele quem deve explicações”, conclui o jornal.
Redação Brasil 247
