Eleição de Flávio Bolsonaro poderia levar a um “retrocesso democrático”, diz observador internacional
Kevin Casas-Zamora, diretor do instituto sueco Idea, aponta avanço do negacionismo eleitoral impulsionado por Donald Trump e alerta para os riscos do extremismo de direita no poder
Uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presenciais pode representar um risco real de degradação das instituições e retrocesso democrático no Brasil, caso o parlamentar adote a mesma conduta autoritária praticada por seu pai, Jair Bolsonaro (PL). O alerta foi feito pelo secretário-geral do Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral (Idea), Kevin Casas-Zamora, em entrevista concedida à Folha de São Paulo.
A análise integra as reflexões do relatório deste ano elaborado pela organização intergovernamental sediada na Suécia, responsável por monitorar a saúde das democracias pelo mundo. Segundo Casas-Zamora, o avanço eleitoral da extrema direita é um movimento fruto da vontade popular e legítimo dentro do jogo democrático. A ameaça concreta, no entanto, manifesta-se quando esses grupos chegam ao governo e passam a desacreditar os mecanismos formais de controle sobre o exercício do poder.
O especialista costarriquenho destacou que o negacionismo eleitoral se converteu em uma verdadeira pandemia global nos últimos cinco anos, tendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o “paciente zero”. De acordo com o estudo do Idea, a erosão promovida por Trump no sistema norte-americano influenciou diretamente eventos em outros países, estabelecendo um nexo direto entre a invasão do Capitólio, em Washington, no início de 2021, e os atos antidemocráticos cometidos no dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília.
O relatório do Idea indica que, apesar das ameaças, o Brasil apresentou uma melhora nos seus índices democráticos entre 2025 e 2026, avançando 12 posições na categoria dedicada aos “direitos”. Conforme explicou Casas-Zamora, esse avanço é reflexo de um “efeito rebote”, motivado pela recuperação das instituições após a forte queda registrada durante o governo de Jair Bolsonaro, período marcado por ataques sistemáticos à liberdade de imprensa, à independência dos juízes e à credibilidade das urnas eletrônicas.
Ao avaliar a atuação do Judiciário brasileiro frente às pressões da extrema direita, o diretor do Idea ressaltou que o Supremo Tribunal Federal (STF) cumpriu um papel determinante para resguardar a integridade das eleições. Casas-Zamora defendeu que o país serve de exemplo internacional ao demonstrar que acusações infundadas contra a democracia devem gerar custos políticos reais a quem as promove.
O especialista apontou ainda uma ingerência estrangeira direta por parte do governo de Donald Trump nos rumos da política latino-americana e brasileira, manifestada por meio do apoio aberto a candidaturas de extrema direita, interferências em processos judiciais e pressões diplomáticas. Contudo, ele pontuou que, na ausência de provas cabais de que a conduta dos eleitores foi diretamente alterada por essa intervenção, a premissa é de que o processo eleitoral no Brasil permanece aberto e transparente.
Guilherme Levorato
BRASIL 247
