Dark Horse: liquidante do Master desmente versão de Flávio Bolsonaro sobre financiamento de filme
Responsável pela liquidação do banco afirma não ter encontrado registros de patrocínio a Dark Horse, enquanto a PF investiga repasses milionários ligados a Daniel Vorcaro
Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro
Crédito: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsonaro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/Flávio Bolsonaro/Adriano Machado/Reuters/Daniel Vorcaro/Reprodução/ Montagem/IA Dall-e)
A empresa responsável pela liquidação do Banco Master informou à Câmara dos Deputados que não encontrou documentos, contratos ou registros contábeis que comprovem o patrocínio da instituição financeira ao filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração coloca em xeque a versão apresentada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que classificou os recursos negociados com o banqueiro Daniel Vorcaro como um patrocínio cinematográfico.
Segundo O Globo, a informação foi encaminhada ao Legislativo pela EPB Regimes Especiais de Empresas, responsável pela liquidação do banco, em resposta a um requerimento apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). A manifestação ocorre em meio a uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo a produção.
Liquidante não encontrou contratos ou registros de patrocínio
O parecer encaminhado à Câmara, assinado por Eduardo Felix Bianchin, responsável pela massa em liquidação, afirma que a análise dos documentos disponíveis não identificou operações relacionadas ao financiamento do longa-metragem.
“Após consulta aos acervos das instituições representadas, não foram encontrados documentos, registros contábeis ou contratuais que evidenciem a realização de operações destinadas ao financiamento, patrocínio ou aporte de recursos para a produção cinematográfica mencionada, seja diretamente pelas instituições liquidandas, seja por intermédio de terceiros, nos limites das informações examinadas”.
A manifestação contrasta com a explicação apresentada por Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, no primeiro turno da eleição presidencial. Ao comentar as negociações envolvendo Vorcaro, o senador afirmou:
“Esse foi um patrocínio, não teve nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro.”
A ausência de registros identificados pela liquidante, entretanto, não significa necessariamente que não tenham ocorrido transferências por meio de outras empresas ou estruturas financeiras. O documento delimita suas conclusões às informações examinadas nos acervos das instituições sob liquidação.
Flávio foi questionado sobre diferença de R$ 59 milhões
Na sexta-feira (16), durante sabatina do Jornal Nacional no segundo turno da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro voltou a ser questionado sobre o financiamento de Dark Horse.
Desta vez, a entrevista abordou a diferença entre os aproximadamente R$ 134 milhões solicitados a Daniel Vorcaro para viabilizar a produção e os R$ 75 milhões apontados como custo do filme.
A diferença entre os dois valores chega a R$ 59 milhões.
Em sua resposta, o candidato afirmou que o contrato inicialmente negociado não foi integralmente cumprido. Segundo sua explicação, os recursos efetivamente recebidos de Vorcaro, somados aos aportes de outros investidores, permitiram concluir a produção cinematográfica.
A justificativa, contudo, não esclarece documentalmente a destinação da totalidade dos valores originalmente negociados.
PF investiga envio de US$ 12,3 milhões ao exterior
A Polícia Federal apura suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção ativa relacionadas à estrutura de financiamento do filme.
De acordo com as informações da investigação citadas pela reportagem, Daniel Vorcaro teria assumido o compromisso de destinar aproximadamente R$ 134 milhões à produção.
Desse montante, cerca de US$ 12,3 milhões teriam sido efetivamente transferidos para o exterior por meio de uma estrutura financeira diferente de um patrocínio direto do Banco Master.
As operações envolveram a Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Vorcaro, e o fundo norte-americano Havengate Development Fund LP.
Segundo Flávio Bolsonaro e seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o fundo teria sido constituído para financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro.
As suspeitas investigadas pela PF ainda dependem de esclarecimento quanto à origem, à movimentação e à destinação dos recursos. A existência da investigação não representa, por si só, comprovação dos crimes apurados.
Liquidante também não identificou operações com fundo americano
Além de não localizar registros de patrocínio à produção cinematográfica, a EPB Regimes Especiais de Empresas informou que não encontrou documentação referente a operações das instituições liquidadas com o Havengate Development Fund LP relacionadas ao filme.
O parecer registra:
“De igual modo, não foram localizados registros ou documentos que demonstrem eventuais operações das instituições representadas com o mencionado Havengate Development Fund LP, que possam estar relacionadas à referida produção cinematográfica”.
A declaração acrescenta um elemento à apuração sobre o percurso dos recursos associados ao projeto cinematográfico.
Embora a investigação policial tenha identificado transferências internacionais relacionadas à estrutura financeira utilizada por Vorcaro, a documentação examinada pela liquidante não permitiu estabelecer uma operação correspondente nos registros do Banco Master.
Paulo Emílio
BRASIL 247
