CORRUPÇÃO: Advogada de Flávio recebeu R$ 33 milhões de fundo sem dono identificado

23/10/2026 05h32 - Atualizado há 1 hora

Maria Cláudia Bucchianeri, chefe jurídica da campanha de Flávio, também emitiu notas de R$ 27 milhões no dia que Vorcaro comprou Itaminas

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Divulgação/TSE

A advogada Maria Cláudia Bucchianeri, chefe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), recebeu R$ 33 milhões no ano passado de um fundo fechado de cotista único por um serviço que ela não detalha qual foi. Especializada em direito eleitoral, ela foi ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 2021 e 2023 por indicação do então presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio. Questionada pela coluna disse que a nota “deriva de serviços advocatícios regularmente prestados”.

O pagamento à banca Bucchianeri Advocacia foi feito pelo V3 Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Multicarteira, que é um fundo fechado de cotista único, classificado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como sendo de “investidor não residente”. O beneficiário do fundo – logo, quem pagou Maria Cláudia – é protegido pelas regras do mercado financeiro brasileiro.

O fundo é gerido pela Vision Brazil, administrado pela QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários (antiga Singulare CTVM) e pagou R$ 33 milhões ao escritório de Maria Cláudia somente em 2025, em três notas. Uma delas, sozinha, é de mais de R$ 29,4 milhões.

Em todas a descrição dos serviços diz somente “honorários advocatícios”, ainda a advogada de Flávio Bolsonaro não seja citada como prestadora de serviço jurídico no regulamento do fundo ou em qualquer outro documento público. A coluna também acessou os dois processos judiciais que estavam ativos em 2025, eram públicos e tinham o V3 como uma das partes, e não encontrou qualquer petição da Bucchianeri Advocacia.

À coluna, ela disse que “a nota emitida contra o fundo V3 deriva de serviços advocatícios regularmente prestados, à título exclusivamente privado, com todos os recolhimentos tributários respectivos”. “A ausência de indicação do nome deste Escritório de Advocacia “em documentos públicos do fundo” não indica absolutamente nada, pois o fundo é exclusivamente privado e a grande maioria das informações e processos são submetidos ao sigilo”, alegou a advogada.

A postura contrasta com a de outro caso em que a advogada recebeu montante semelhante: R$ 27 milhões em notas fiscais emitidas contra a Itaminas no mesmo dia (28 de junho de 2024) em que o banqueiro Daniel Vorcaro assinou a versão final do documento de compra da empresa.

Nesse caso, as notas fiscais emitidas pelo escritório dela citam inclusive o número do processo relacionado ao pagamento. No caso dos R$ 27 milhões, detalhou ter feito “advocacia contenciosa em Brasília” e “consultiva/administrativa” na renegociação de uma transação fiscal específica, que beneficiou todo o “grupo Itaminas”, composto por mais de duas dezenas e empresas e o Instituto Inhotim.

Procurada pela reportagem, ela negou irregularidades e justificou a coincidência de datas entre as notas e a compra da empresa por Vorcaro. “A Bucchianeri Advocacia presta serviços à ‘família Paz’ e às suas empresas desde 2019 e já emitiu não uma, mas diversas notas fiscais por serviços advocatícios regularmente prestados. A alteração do controle societário da Itaminas foi amplamente noticiada pela imprensa. Como é próprio de operações dessa natureza, a companhia promoveu a equalização de seus passivos com fornecedores e prestadores de serviço. Esta Sociedade Profissional era um desses prestadores de serviço que acumulavam créditos junto à ITAMINAS. Os honorários em aberto, acumulados em anos de atuação e sem relação com a operação de venda, foram renegociados e consolidados, o que originou os pagamentos mencionados pela reportagem. A Bucchianeri Advocacia segue prestando serviços regulares à ‘Família Paz’ e às suas empresas e esclarece que jamais prestou serviços ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou a qualquer empresa ou fundo de seu ecossistema”.

Demétrio Vecchioli

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