125 mensagens revelam detalhes da festa de Vorcaro atribuída ao bolsonarista Nunes Marques

16/10/2026 05h01 - Atualizado há 1 hora

Mordomo relatou quarto supostamente ocupado por ministro e cinco mulheres e enviou fotos de preservativos encontrados no imóvel

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Crédito: Luiz Roberto/TSE

O banqueiro Daniel Vorcaro mobilizou funcionários e prestadores de serviços para organizar uma festa destinada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, em 28 de fevereiro de 2025, em seu tríplex no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. A organização do encontro, que envolveu mulheres contratadas por intermédio de uma agenciadora e despesas de aproximadamente R$ 27 mil, foi detalhada em uma reportagem da revista piauí publicada nesta quinta-feira (15), com base em 125 mensagens extraídas de um celular do então controlador do Banco Master apreendido pela Polícia Federal.

As conversas, às quais a reportagem teve acesso, mostram que Vorcaro coordenou os preparativos do evento por meio de contatos com motoristas, empregados domésticos, um chef de cozinha, uma intermediária responsável pelas mulheres e um arquiteto. Os registros também apresentam relatos sobre a utilização dos quartos e da piscina do apartamento. Ao ser questionado pela revista, Nunes Marques afirmou que nunca solicitou favores ao banqueiro, negou ter trocado mensagens com ele e declarou não poder responder por atos de terceiros.

A documentação amplia as informações divulgadas anteriormente pelo Metrópoles e pelo UOL sobre o encontro. A nova reportagem permite acompanhar os preparativos, a chegada dos participantes e as comunicações feitas ao banqueiro ao longo da noite.

Uma das mensagens mais relevantes foi enviada pelo mordomo Michael às 20h56, quando informou que havia disponibilizado um quarto para o ministro e cinco mulheres. O funcionário também relatou situações ocorridas no apartamento e encaminhou fotografias de objetos encontrados durante a limpeza.

Festa teve despesas de aproximadamente R$ 27 mil

Os preparativos começaram em 26 de fevereiro de 2025, dois dias antes do encontro. Naquela madrugada, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), solicitou ao agente de viagens de Vorcaro uma reserva no Hotel Fasano do Itaim Bibi.

“Essa sexta a sábado pro KN”, escreveu o magistrado, utilizando as iniciais de Kassio Nunes Marques, conforme a reportagem.

Na mesma data, Vorcaro entrou em contato com o chef José Maria Meira para organizar o serviço de alimentação. A programação incluía um churrasco e produtos de alto valor.

O chef realizou compras que totalizaram R$ 21.121,90. Desse montante, R$ 1.772 foram gastos em carnes, enquanto cinco latas de caviar custaram R$ 15.100. A lista também incluía trufas. Com a contratação e mobilização de outros profissionais, as despesas relacionadas ao evento chegaram a aproximadamente R$ 27 mil.

Vorcaro informou ao chef que esperava 15 convidados e solicitou reforço no atendimento. O banqueiro também acionou o arquiteto Kiko Sobrinho para resolver problemas na automação e no ar-condicionado do apartamento, além de determinar alterações na disposição dos móveis.

As mensagens mostram que o empresário acompanhou esses detalhes durante a sexta-feira, inclusive antes da chegada dos participantes.

Mensagens mostram chegada das mulheres e dos convidados

A entrada das primeiras mulheres foi registrada pouco depois das 14h. Um dos motoristas procurou Vorcaro para perguntar se poderia autorizar a subida delas ao apartamento.

“Dr, começou chegar meninas. Pode liberar?”, questionou o funcionário.

O banqueiro respondeu: “Todas que chegarem. Pode subir.”

A intermediária identificada como Rayanna havia informado anteriormente que não poderia comparecer pessoalmente, mas providenciaria a presença de duas mulheres. Outras mensagens divulgadas nas reportagens indicam que cinco mulheres participaram do encontro.

Por volta das 14h40, Vorcaro comunicou ao motorista a chegada de convidados em um Ford Fusion preto e pediu que fossem recebidos.

O empresário também escreveu ao então diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, que estava “fazendo graça para ministro em SP”.

Às 14h54, o mordomo relatou que os visitantes observavam atentamente o imóvel. Na sequência, os registros apresentados pela revista mostram que Vorcaro passou algumas horas sem enviar novas instruções nas conversas relacionadas à festa.

A reportagem ressalva que o material não permite determinar se o banqueiro permaneceu no apartamento durante todo o evento.

Mordomo relatou uso de quarto e movimentação na piscina

O conteúdo das mensagens enviadas à noite apresenta novos detalhes sobre o encontro.

Às 20h56, Michael informou a Vorcaro que havia cedido um quarto ao ministro acompanhado de cinco mulheres. O funcionário explicou que tentara obter autorização por telefone, mas não conseguira falar com o empresário.

Às 21h29, Vorcaro respondeu: “Claro. Qie sim”.

Poucos minutos depois, o banqueiro orientou o funcionário a manter seu próprio quarto fechado e disponibilizar outros espaços do apartamento.

Às 22h08, Michael enviou outra mensagem, relatando que os participantes estavam sem roupas na piscina.

“Pessoal tudo pelado na piscina”, escreveu.

O mordomo acrescentou que uma das mulheres havia passado mal, mas já estava recuperada.

Mais tarde, Vorcaro perguntou se haviam sido providenciadas toalhas. O funcionário confirmou e acrescentou que o ministro não demonstrava pressa para deixar o local.

“Ministro tá sem pressa nenhuma de ir embora acabou de falar que está renovando para começar tudo novamente”, afirmou Michael.

Às 23h15, o empregado informou que o visitante se preparava para sair. Dois minutos depois, comunicou sua partida.

Os registros seguintes mostram que o mordomo iniciou a organização do apartamento e enviou fotografias ao banqueiro. Uma das imagens mostrava três preservativos usados sobre um tapete. Outra registrava uma peça íntima feminina encontrada próxima à roupa de cama.

As fotografias e os relatos indicam atividade sexual durante o encontro, mas, isoladamente, não permitem estabelecer quem participou de cada ato.

No dia seguinte, Vorcaro dispensou a funcionária Selma, responsável pela limpeza do imóvel.

Banco Master enfrentava dificuldades financeiras no mesmo dia

As conversas também mostram que Vorcaro discutia problemas de liquidez do Banco Master enquanto acompanhava a realização da festa.

Às 16h31 de 28 de fevereiro de 2025, um contato identificado como sendo do ex-diretor do Banco Central Paulo Sergio Souza perguntou ao banqueiro sobre a utilização de R$ 800 milhões de recursos associados ao depósito compulsório da instituição.

Vorcaro respondeu que esperava normalizar a situação depois do Carnaval, mediante operações de venda de carteira de crédito e novas captações.

A situação apresentada nas mensagens tornou-se mais grave durante a noite. Às 20h20, o executivo Alberto Felix de Oliveira Neto informou que o valor havia alcançado R$ 1,25 bilhão.

“Como assim Alberto. Estava 800. Vocês piraram”, reagiu Vorcaro.

Poucos minutos depois, o empresário determinou a outro executivo, Angelo Silva, que demitisse Alberto e tentasse recuperar a situação financeira do banco.

Naquele período, o Master também negociava uma operação com o Banco de Brasília (BRB), que seria anunciada no mês seguinte e tinha como objetivo reforçar sua estrutura financeira.

Revelações acrescentam elementos à relação entre Vorcaro e Nunes Marques

O encontro ocorreu em um período no qual o Banco Master mantinha interesses financeiros e jurídicos relacionados a decisões de instituições públicas.

A reportagem da piauí menciona que a defesa do banco solicitou, em três ocasiões, que processos relacionados à instituição fossem conduzidos por Nunes Marques, em vez de André Mendonça.

Outro episódio citado envolve o julgamento do caso Alcídia, relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro. Cinco meses antes da festa, Nunes Marques proferiu um voto de desempate na Segunda Turma do STF. Segundo a revista, mensagens mostram que Vorcaro e seus advogados comemoraram o resultado.

A publicação também relata transferências realizadas pelo Banco Master à Consult Inteligência Tributária. Foram 14 operações, totalizando R$ 6,6 milhões, em um período que incluiu a data da festa.

Desse valor, conforme a reportagem, a consultoria repassou R$ 282 mil a Kevin Marques, filho do ministro. A revista também menciona mensagens que atribuem a Vorcaro o pagamento de uma remuneração mensal de R$ 500 mil a Kevin.

As informações levantam questionamentos sobre as relações mantidas entre o banqueiro e pessoas próximas ao magistrado. Os elementos apresentados, entretanto, não demonstram, por si só, que decisões judiciais tenham sido tomadas como contrapartida aos pagamentos ou ao encontro.

Caso já havia sido mencionado em reportagens anteriores

As primeiras revelações sobre a festa vieram a público em 15 de setembro de 2026, quando o Metrópoles publicou mensagens trocadas entre Vorcaro e a intermediária Rayanna.

Nos diálogos, a mulher fazia referência a uma participante que teria mantido contato íntimo com alguém identificado como Kassio.

“Ela disse que ficou com o kassio”, escreveu a intermediária, segundo as mensagens reproduzidas pelo veículo.

Na mesma conversa, Rayanna mencionou uma cobrança relacionada à participante. Vorcaro perguntou o valor, e a intermediária respondeu: “10 né!”, encaminhando posteriormente seus dados para transferência por Pix. A reportagem original não apresenta essa mensagem como comprovante de pagamento.

Em 13 de outubro, o UOL divulgou informações adicionais sobre a presença de cinco mulheres e o conteúdo das mensagens trocadas pelo banqueiro com funcionários.

A reportagem publicada agora pela piauí apresenta um conjunto mais amplo de conversas e acrescenta detalhes sobre os gastos, a logística do evento e as comunicações realizadas durante a noite.

Nunes Marques nega ter pedido favores a Vorcaro

A revista encaminhou questionamentos ao ministro sobre sua presença no encontro, a possibilidade de pagamento às mulheres e eventuais consequências do episódio para sua atuação no Supremo.

Também perguntou se o magistrado considerava necessário declarar impedimento em processos relacionados ao Banco Master e se entendia possuir condições para continuar presidindo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Nunes Marques respondeu por meio de uma nota na qual negou ter solicitado benefícios ao banqueiro ou mantido comunicação direta com ele.

“O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”.

A manifestação não respondeu diretamente às perguntas sobre a presença do ministro na festa, a eventual contratação de mulheres para o encontro ou possíveis consequências do episódio para sua participação em processos relacionados ao Banco Master.

A reportagem da piauí informa ainda que Nunes Marques atua em processos relacionados à instituição financeira, incluindo uma ação sobre a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito no Senado para investigar o banco.

Redação Brasil 247