Uso de mosquitos com bactéria avança contra a dengue no país

09/11/2026 04h18 - Atualizado há 22 minutos

Estratégia biológica se consolida como política pública de saúde, mas enfrenta barreiras regulatórias e orçamentárias

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Crédito: REUTERS/Pilar Olivares

 O método de controle biológico baseado na liberação de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia consolidou-se no enfrentamento à dengue no Brasil, embora a expansão da tecnologia ainda esbarre em gargalos regulatórios e restrições orçamentárias, informa a Folha de São Paulo. A estratégia, que impede a replicação dos vírus transmissores da dengue, zika e chikungunya, passou a integrar as diretrizes nacionais do Ministério da Saúde em 2024, após anos de testes conduzidos por instituições científicas em diferentes regiões do país. A iniciativa, implementada inicialmente como projeto-piloto em Niterói (RJ) pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com o World Mosquito Program, demonstrou reduções expressivas nas taxas de infecção ao longo dos anos. Contudo, o avanço do método ocorre em um cenário desafiador, marcado por previsões de alta incidência de arboviroses impulsionadas pelo fenômeno climático El Niño e por impasses na regulamentação de novas cepas bacterianas e na produção em larga escala por consórcios privados e biofábricas nacionais.

Metodologia de soltura expande cobertura em dezesseis municípios

Atualmente, a soltura dos insetos modificados ocorre em 16 municípios brasileiros, abrangendo uma população estimada em 16 milhões de habitantes, com investimentos federais acumulados em R$ 117 milhões. A tecnologia consiste na introdução da bactéria Wolbachia — que ocorre naturalmente em cerca de dois terços das espécies de insetos, mas está ausente no Aedes aegypti — em ovos produzidos em biofábricas instaladas no país. Após a eclosão das larvas e o desenvolvimento para a fase adulta, os mosquitos são liberados semanalmente nas ruas por agentes de saúde municipais durante um período médio de 26 semanas. O cruzamento entre os espécimes liberados e as fêmeas selvagens garante que os descendentes também carreguem a bactéria, elevando a proporção de insetos incapazes de transmitir o vírus para cerca de 70% da população local em poucas semanas.

O Ministério da Saúde planeja incluir outros 54 municípios no programa a partir do próximo ano, expandindo o alcance para mais 7,2 milhões de pessoas, com a inclusão de cidades como Campinas e Ribeirão Preto, em São Paulo. O pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, que participou da implantação inicial do projeto em Niterói e de um estudo subsequente em Campo Grande (MS) — onde houve redução de 63% nos casos —, destacou a transição da tecnologia para o âmbito institucional. “Em 2024, tivemos a virada de chave quando a Wolbachia entrou para as diretrizes nacionais da Saúde, saindo do contexto acadêmico e virando uma política pública”, afirmou. A expansão, no entanto, precisa ser planejada com antecedência para garantir eficácia antes dos períodos de maior transmissão da doença.

Desafios operacionais e impacto do El Niño nas regiões

Especialistas apontam que a eficácia da intervenção biológica depende do tempo necessário para que o ecossistema local atinja a estabilidade da cobertura bacteriana. O infectologista e pesquisador da Fiocruz Julio Croda ressalta que o método se torna autossustentado após cerca de dois anos, quando atinge em média 60% de cobertura municipal, mas exige antecedência na liberação para proteger a população na temporada subsequente. “A tecnologia é autossustentada após dois anos, quando já atinge, em média, 60% da cobertura municipal. Mas, para ter eficácia na temporada subsequente, é preciso que a liberação comece dois anos antes”, declarou o pesquisador. O cenário epidemiológico é agravado pelas projeções do boletim InfoDengue, que indicam riscos de aumento acentuado nos casos de dengue em várias regiões do país, especialmente no Sul, Centro-Oeste e Sudeste, impulsionadas por temperaturas elevadas associadas ao El Niño.

As projeções apontam aumentos expressivos na incidência de arboviroses em estados como Acre, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Sergipe, enquanto o restante do território deve registrar patamares semelhantes aos da temporada anterior. Croda argumenta que o planejamento de soltura deveria priorizar áreas que enfrentam picos da doença em períodos mais quentes e regiões tradicionalmente mais frias que vêm registrando temperaturas elevadas. Segundo o pesquisador, embora as biofábricas estejam prontas para ampliar a produção de ovos e atender à demanda nacional, a execução esbarra em entraves de orçamento que limitam a distribuição em larga escala e a cobertura de novas áreas prioritárias em todo o território brasileiro.

Gargalos regulatórios e diversificação de cepas bacterianas

Além das restrições financeiras, o avanço da estratégia enfrenta barreiras de natureza regulatória. A diretora-executiva da Flyttr no Brasil, Natália Ferreira, apontou que as normas vigentes do Ministério da Saúde priorizavam inicialmente o modelo desenvolvido pela Fiocruz e pela Wolbito do Brasil. A empresa negocia atualmente com a pasta federal a utilização de sua planta fabril em Campinas para o fornecimento de ovos modificados, oferecendo uma alternativa técnica relevante para o combate à doença. A companhia disponibiliza não apenas a cepa wMelPop, mas também a cepa wAlbB, que apresenta maior resistência a altas temperaturas e pode atuar como aliada estratégica em cenários climáticos influenciados pelo El Niño e pelo aquecimento global contínuo.

“Podemos fazer diversas combinações de mosquitos Aedes aegypti conforme a localidade do município e as cepas de Wolbachia, ampliando as possibilidades de cobertura”, afirmou Ferreira. As biofábricas instaladas no país possuem capacidade produtiva expressiva — a Wolbito do Brasil relata potencial de até 150 milhões de ovos por semana, enquanto a Flyttr afirma poder produzir até 190 milhões no mesmo período —, mas a efetivação desses volumes depende diretamente de contratos e acordos firmados com as administrações municipais e federais. Enquanto o Ministério da Saúde informou ter adquirido ovos suficientes para atender aproximadamente 10 milhões de habitantes no presente ano, pesquisadores e representantes do setor produtivo avaliam que a desburocratização regulatória e a ampliação do financiamento contínuo são fundamentais para consolidar o modelo brasileiro como referência internacional no controle vetorial da dengue.

Guilherme Levorato

BRASIL 247