Trump ameaça o Irã, a conta chega a São Paulo, a Lisboa e à mesa do mundo

08/04/2026 05h32 - Atualizado há 1 dia
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O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no Salão Cruzado da Casa Branca • Getty Images

Trump elevou a crise com o Irã ao vocabulário da devastação total. Quando um presidente fala como se pudesse apagar uma civilização, o mercado ouve, os navios recuam e o preço da vida sobe.

Trump deu a Teerã um prazo para reabrir o Estreito de Ormuz e acompanhou o ultimato com a frase mais assustadora de todas as que usou até agora: “uma civilização inteira morrerá esta noite”.

Ao mesmo tempo, a guerra já atingia infraestrutura energética e de transporte, enquanto o estreito seguia no centro da crise. Ormuz movimenta cerca de 20 milhões de barris por dia, cerca de 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo e aproximadamente um quarto do comércio marítimo de petróleo. O barril de Brent voltou a subir acima de US$ 111, e o FMI já fala em crescimento global mais lento e inflação mais alta.

Aqui esta história deixa o Golfo e entra no espaço da lusofonia. O Brasil já sente o choque: a Petrobras planeja elevar em cerca de 55% o preço do querosene de aviação, e a guerra pressiona também fertilizantes, fretes e custos do agro.

A Reuters mostrou que o Brasil, que importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, já viu a ureia subir em flecha; cerca de 41% das remessas de ureia que abastecem o país passavam por Ormuz. Quando um canal tão importante se torna impraticável, a colheita futura, o preço da passagem aérea e o custo do supermercado deixam de ser temas separados.

Portugal sente o mesmo abalo por outra porta. Uma economia aberta, dependente da estabilidade europeia, sofre sempre que energia, transporte marítimo, crédito e inflação entram em combustão ao mesmo tempo.

Em Lisboa o preço do diesel quase dobrou de preço nos postos de abastecimento. A guerra moderna já não se limita ao mapa militar: ela infiltra-se no orçamento doméstico, no turismo, na indústria, no custo das importações e na confiança dos investidores.

A retórica de força de Washington produz um efeito político antigo e brutal: os centros de decisão parecem soberanos, mas a conta desce em cascata até aos países que não dispararam um único míssil.

Mas o que mais me preocupa é apenas a ameaça — é a naturalidade com que um poder voltou a falar em destruição civilizacional como instrumento negocial. Essa linguagem corrói o direito, contamina a diplomacia e normaliza a ideia de que infraestruturas civis, cadeias de abastecimento e populações inteiras podem ser tratadas como peças de pressão.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha advertiu precisamente contra isso: regras de guerra valem também para as palavras. Quando a maior potência do mundo transforma o apocalipse em método, brasileiros e portugueses fariam bem em abandonar a ilusão da distância. O Atlântico já não protege ninguém: nem da inflação, nem do medo.

Coluna José Manuel Diogo - CNN