Laudo da bebê morta pelo padrasto mostra costela quebrada e coração rompido

08/11/2026 05h13 - Atualizado há 29 minutos

Exame em Alice, de 1 ano, aponta costelas fraturadas repetidas vezes com sinais de calcificação, traumatismo craniano e ruptura do coração

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Material cedido pela família

O laudo cadavérico emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) do Distrito Federal revelou os detalhes escabrosos e brutais da via crúcis percorrida pela pequena Alice Fraga Delgado de Oliveira, de apenas 1 ano e 3 meses, morta de forma brutal em (25/10). Os exames periciais resgatam a dimensão do horror vivido pela criança submetida a uma rotina de violência sistemática e contínua.

Segundo os legistas, a bebê sofria espancamentos constantes: o corpo carregava marcas de agressões antigas e recentes, evidenciadas por fraturas em várias costelas que já apresentavam sinais claros de calcificação, a prova pericial de que os mesmos ossos haviam sido quebrados repetidas vezes ao longo de sua curta vida.

O ápice das agressões, ocorrido em 25 de outubro último, culminou em traumas internos devastadores. A violência dos impactos provocou um quadro severo de hemopneumotórax e a ruptura total do tecido cardíaco — no jargão pericial, o coração da criança foi literalmente “estourado” no peito diante da intensidade dos golpes aplicados contra o seu peitoral fragilizado por fraturas preexistentes. A certidão de óbito e a autópsia ratificaram as causas diretas da morte: hemorragia aguda, politraumatismo e ação contundente.

Juiz negou medida

A análise médica e as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) revelam que a tragédia não foi um episódio isolado, mas o desfecho fatal de um longo histórico de maus-tratos. Ao longo de seus 15 meses de vida, Alice deu entrada em unidades hospitalares por três vezes. Em uma das internações anteriores, a bebê já havia sido diagnosticada com traumatismo crânio-encefálico provocado por agressões físicas.

O desfecho trágico desenhou-se no final de semana de 24 e 25 de outubro. A mãe buscou a criança no sábado (24/10). Menos de 24 horas depois, no domingo (25/10), Alice foi levada desacordada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia.

Um detalhe chama a atenção: o juiz Alexandre Pamplona Tembra tomou uma decisão que seria fatal. Apenas três dias antes do homicídio, na quinta-feira (22/10) a Justiça do Distrito Federal negou um pedido de urgência protocolado pelo Conselho Tutelar de Samambaia para afastar a criança do convívio da mãe, do padrasto e da babá.

Morte anunciada

A solicitação do órgão protetivo havia sido formalizada após profissionais de saúde identificarem lesões graves no corpo da menina durante um atendimento ocorrido em 13 de outubro. Na ocasião, Alice deu entrada no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) e foi posteriormente transferida para o Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib).

Mesmo com as evidências de violência física identificadas pelas equipes médicas, o pedido de acolhimento institucional e proteção à criança foi negado pela Justiça. Livre de intervenção judicial, a bebê foi entregue novamente à mãe no sábado e morta no domingo.

A brutalidade estampada no laudo do IML e a interrupção precoce da vida de Alice provocaram forte indignação e comoção em Samambaia e em diversas regiões do Distrito Federal. Diante da comoção, familiares, amigos e voluntários mobilizaram-se em uma rede de solidariedade para arcar com os custos do sepultamento.

“Foram pessoas que amam a nossa família, que se sensibilizaram e fizeram doações para que ela tivesse aquele velório”, desabafou um familiar sob condição de anonimato. O sentimento na comunidade é de choque, luto e profunda cobrança por justiça pela vida de uma criança que viveu sob a sombra da violência contínua.

Alice não resistiu

Já na terceira internação, em 25 de outubro, os profissionais de saúde constataram que a menina deu entrada em parada cardiorrespiratória e coberta por hematomas que apresentavam diferentes estágios de evolução e cicatrização. Apesar das tentativas de reanimação, a bebê não resistiu à gravidade dos ferimentos.

Nessa sexta-feira (6/11), exatamente 10 dias após a morte de Alice, agentes da 32ª Delegacia de Polícia (Samambaia) prenderam o padrasto da criança, João Carlos Pereira da Costa, de 23 anos. Ele é o principal suspeito de ter provocado as lesões corporais que resultaram na morte da menina.

A PCDF trabalha no cruzamento dos depoimentos com os achados periciais do IML para consubstanciar o inquérito policial e responsabilizar formalmente o suspeito pelos crimes cometidos contra a criança.

Carlos Carone

METRÓPOLES