Guerra pode interromper comércio de fertilizantes
Preços de fertilizantes sobem mais rápido que commodities agrícolas, comprimindo a rentabilidade no campo globalmente
Nas primeiras 48 horas após os ataques ao Irã, os preços da ureia no Norte da África subiram quase 20%, enquanto o gás natural na União Europeia registrou alta de cerca de 45%. Segundo relatório do Rabobank, o choque provocado pelo atual conflito no Oriente Médio já se mostra mais profundo e complexo do que as disrupções observadas após o conflito de 12 dias entre Israel e Irã em 2025.
O conflito em curso na região está provocando interrupções no comércio global de fertilizantes, elevando preços e restringindo a oferta em diferentes regiões agrícolas. A redução do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 25% a 30% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados, tem dificultado o transporte de insumos e ampliado a volatilidade do mercado.
“Os fertilizantes são responsáveis por 40% a 50% do custo variável da produção de grãos, tornando choques de preço imediatamente visíveis nos orçamentos das fazendas”, afirma o relatório.
Segundo o Rabobank, o aumento mais rápido dos preços dos fertilizantes em comparação com as commodities agrícolas tende a pressionar a rentabilidade no campo. “Isso sinaliza um período em que os preços dos fertilizantes permanecem elevados enquanto os preços das safras se mantêm relativamente estáveis, comprimindo as margens dos agricultores em todo o mundo”, conclui o relatório.
Caso o conflito se prolongue, o banco espera que a disponibilidade e a acessibilidade de fertilizantes possam se deteriorar ainda mais ao longo de 2026, elevando o risco de redução nas taxas de aplicação e de ajuste na demanda global.
Gargalos logísticos
O Estreito de Ormuz é considerado um ponto estratégico para o fluxo global de energia e fertilizantes. Com o trânsito de embarcações reduzido e rotas sendo desviadas para evitar o Golfo Pérsico, os custos de frete e de seguro marítimo aumentaram, enquanto parte da produção regional sofreu interrupções.
Além das dificuldades no transporte, o conflito também afeta instalações produtivas e cadeias de suprimento em países do Oriente Médio e do Norte da África. Considerando a região como um todo, o Rabobank estima que volumes significativos de nutrientes estejam expostos a possíveis interrupções, incluindo cerca de 44% das exportações globais de ureia, 27% das de amônia e 25% das de fertilizantes fosfatados.
Segundo o relatório do banco holandês, perder acesso a volumes dessa magnitude seria difícil de compensar no curto prazo, o que tende a gerar efeitos amplos nos mercados internacionais de fertilizantes.
“A atual guerra no Oriente Médio volta a destacar os gargalos severos que definem a cadeia global de suprimento de fertilizantes”, afirmam os analistas.
Pressão sobre fosfato
O aumento dos preços de insumos básicos também pressiona a indústria de fertilizantes. O enxofre, insumo necessário para a produção de fertilizantes fosfatados, registrou forte valorização desde o segundo semestre de 2025 e continua pressionando as margens do setor.
O relatório aponta que unidades menores de produção no Brasil já foram temporariamente desativadas devido ao encarecimento desses insumos. Caso os preços permaneçam elevados, outras plantas podem enfrentar dificuldades semelhantes.
Além do enxofre, o custo da amônia, outro insumo da cadeia, também subiu entre 15% e 28% nos últimos dias. O Rabobank calcula que um aumento de cerca de 33% no preço da amônia poderia levar diversos produtores de fosfato a operar com margens negativas.
Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
