Governo Milei nega consumo de carne de burro: "caso isolado"
Iniciativa de produtor chamou atenção, mas jumentos não são consumidos como alimento no país
O governo de Javier Milei negou que os argentinos tenham começado a comer carne de burro devido ao aumento dos preços da carne bovina.
Por meio do “Escritório de Resposta Oficial”, um perfil oficial na rede social X dedicado a rebater manchetes da imprensa, a Casa Rosada afirmou que a notícia de consumo de carne de burro “amplifica mais uma vez um caso isolado e marginal, com o claro propósito de prejudicar a imagem da República Argentina”.
O governo se referiu à repercussão gerada pelo projeto piloto de venda de carne de burro por um produtor de Trelew, na Patagônia argentina.
Nas últimas semanas, o episódio ganhou repercussão na imprensa local e mundial, geralmente atribuindo a venda experimental ao aumento do preço do churrasco no país conhecido pela qualidade e alto consumo per capita de carne vermelha.
O autor da iniciativa, Julio Cittadini, no entanto, disse à imprensa que a ideia se deveu a problemas na produção bovina diante da presença de predadores, e não pelo preço da carne.
“Tratou-se de um único açougue que comercializou uma quantidade mínima de um produto totalmente alheio aos hábitos alimentares e tradição gastronômica dos argentinos”, manifestou a postagem governamental.
Consumo de carne na Argentina
Apesar de ter conseguido uma forte desaceleração da inflação, os aumentos de preço ainda são um problema para o governo Milei, que enfrenta um índice mensal de 3,4% e anual de 32,6%.
No último ano, o custo da carne bovina disparou. Os diferentes cortes encareceram, em média, 68,6% em Buenos Aires, Rosário e Córdoba, de acordo com o Ipcva (Instituto de Promoção da Carne Bovina da Argentina).
Somente de fevereiro para março de 2026, a variação do preço chegou a 10,6%.
Como consequência, o consumo acabou afetado. Em março, a média de consumo de carne bovina dos últimos 12 meses caiu 3,7%, chegando a 47,3 kg/ano per capita, segundo a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina.
A produção, por sua vez, sofreu uma redução de 10%.
À CNN Brasil, Miguel Schiariti, presidente da Ciccra (Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina), explica que a queda do consumo se deve à diferença de custos de produção do gado em relação ao frango e ao porco, que passaram a ser mais comprados pela população.
“A genética suína e aviária se modificou o suficiente para que sejam muito mais produtivas e que, com menos alimento, produzam um quilo de carne”, diz.
O Centro de Economia Política Argentina também atribui o encarecimento à seca registrada nos últimos anos que teve impacto nas condições produtivas e à maior demanda internacional de carne bovina.
Segundo Schiariti, apesar de o país exportar carne de cavalo para países europeus, os burros somente são utilizados na Argentina somente para transporte de carga, e não para consumo.
A resposta ao aumento de quase 70% no preço da carne bovina foi a transferência de consumo para o frango e o porco, que encareceram 49,1% e 28,1% respectivamente, no mesmo período, segundo o Ipcva.
O dado é usado na argumentação governamental, que afirma que em 2025 o consumo per capita de carnes - sem especificar o tipo - aumentou 3,85%, chegando a 116,4 kg por habitante.
A Casa Rosada também alega que a produção suína cresceu 15,7% no primeiro trimestre de 2026.
Blog Luciana Taddeo - CNN
