Empresários apontam interferência das eleições no tarifaço de Trump
EUA vão sobretaxar o Brasil em 25% com base na seção 301 da sua Lei de Comércio
Empresários brasileiros afetados pela taxa de 25% dos Estados Unidos avaliam que a disputa política em torno do tema atrapalhou a negociação. O governo federal estima que 18% das exportações brasileiras serão sobretaxadas a partir da semana que vem.
Entre os setores mais afetados, está o madeireiro. Em nota, a Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente) atribuiu o tarifaço a uma negociação associada a componentes políticos.
Para a associação, a reversão do tarifaço deve ser tratada com urgência e como prioridade política.
“No entendimento da associação, diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática, para evitar um resultado que penaliza diretamente a indústria brasileira de madeira processada”, diz o posicionamento da Abimci.
Já a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) atribuiu a responsabilidade ao governo brasileiro devido a “ruídos diplomáticos desnecessários”. Segundo a federação, a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma “condução técnica e pragmática”.
“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”, informou a Fiesp em nota.
Nesta sexta-feira (17), ao ser questionado sobre o impacto das eleições do Brasil na negociação do tarifaço, o presidente da Apex Brasil, Laudemir Müller, disse que ter clareza apenas do que “ajudou” o processo que resultou em mais de 600 itens isentos.
“O que ajudou foi esse envolvimento das empresas brasileiras, o trabalho feito pela Apex Brasil junto às empresas brasileiras e americanas, de mostrar a importância de cada setor, o quanto os setores dependiam uns dos outros. Tudo que foi diferente disso, me parece que não ajudou. Alguns dizem que atrapalhou”, disse.
Troca de acusações
O Palácio do Planalto responsabiliza a família Bolsonaro pela sobretaxa de 25%. Na semana passada, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou da audiência pública realizada pelo governo norte-americano sobre o tema. Na ocasião, o senador pediu o adiamento da tarifa.
“É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”, disse a Casa Civil em nota.
Flávio, por sua vez, atribui a “culpa” do tarifaço ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Enquanto eu estava nos EUA tentando evitar o tarifaço, Lula preferiu provocar Trump. O Brasil sequer enviou representantes para defender os nossos interesses”, escreveu Flávio no X.
Sobretaxa de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, acatou recomendação do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) e decidiu impor uma alíquota adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros.
Os produtos que já estiverem embarcados antes de 22 de julho poderão ficar livres da sobretaxa, desde que ingressem nos Estados Unidos até 29 de julho.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse que a sobretaxa foi imposta porque o “Presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé.”
No X, ele afirmou que as políticas econômicas adotadas pelo petista “são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros”.
“No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, escreveu Rubio.
Vitória Queiroz, da CNN Brasil, Brasília
