Democratas preparam ofensiva contra Trump com investigações e ameaça de impeachment

05/11/2026 05h06 - Atualizado há 1 hora

Após conquistar Câmara e Senado, oposição mira negócios da família presidencial, guerra contra o Irã, abusos na imigração e atuação do Pentágono

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Crédito: REUTERS/Eric Lee

A vitória dos democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), abriu caminho para uma ampla ofensiva política e institucional contra o presidente Donald Trump. Com o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, a oposição pretende investigar suspeitas de corrupção envolvendo a família presidencial, questionar operações militares no exterior e ampliar a fiscalização sobre as políticas de imigração. Um novo processo de impeachment também está entre as possibilidades discutidas.

Segundo reportagem de O Globo, com informações da BBC, os democratas já articulam como utilizarão suas novas maiorias no Congresso a partir de janeiro de 2027. O resultado eleitoral, marcado por derrotas republicanas em estados tradicionalmente conservadores, ameaça restringir a capacidade de Trump de executar sua agenda nos dois últimos anos de mandato.

A mudança no equilíbrio de forças permitirá que parlamentares democratas convoquem autoridades para prestar depoimentos, requisitem documentos e promovam audiências sobre decisões da Casa Branca. Além das investigações, o partido poderá bloquear iniciativas legislativas e dificultar a aprovação de recursos destinados a prioridades do governo.

Negócios da família Trump entram na mira do Congresso

Uma das principais frentes de investigação será a relação entre o governo federal e os interesses empresariais da família Trump. Os democratas pretendem examinar acordos internacionais, operações envolvendo criptomoedas e possíveis conflitos de interesses entre decisões oficiais e negócios privados.

O deputado Suhas Subramanyam, reeleito pela Virgínia e integrante da Comissão de Supervisão da Câmara, afirmou à BBC que a prioridade será assegurar que o dinheiro dos contribuintes estadunidenses “seja usado com sabedoria e não seja roubado ou desviado por causa de corrupção”.

Entre os possíveis alvos estão as atividades empresariais de Jared Kushner, genro do presidente, e as relações de integrantes da administração republicana com companhias privadas. Também deverá ser examinada a entrega, pelo Catar, de uma aeronave avaliada em US$ 400 milhões, aproximadamente R$ 2,1 bilhões, destinada a servir como avião presidencial.

A oposição pretende utilizar os poderes de investigação do Congresso para esclarecer se interesses financeiros particulares influenciaram decisões do governo. As apurações poderão envolver pedidos de documentos, depoimentos de empresários e convocações de autoridades federais.

Guerra contra o Irã pode colocar secretário de Defesa sob pressão

Outra prioridade será investigar a condução da guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro de 2026, especialmente a atuação do secretário de Defesa, Pete Hegseth.

Os democratas querem esclarecimentos sobre mortes de civis, gastos militares, redução dos estoques de munições e denúncias de falta de preparação de tropas e instalações estadunidenses.

A oposição também poderá apresentar propostas para obrigar Trump a encerrar as operações militares ou solicitar autorização expressa do Congresso para sua continuidade. Uma das alternativas discutidas é impedir a aprovação de recursos adicionais destinados ao conflito.

Nesse cenário, a proposta de orçamento de US$ 1,5 trilhão para o Pentágono poderá enfrentar resistência. A restrição financeira, combinada ao desgaste dos arsenais militares, dificultaria a manutenção prolongada das operações.

As investigações poderão alcançar ainda ataques realizados por forças estadunidenses contra embarcações no Caribe, classificados pelo governo como ações de combate ao narcotráfico.

Hegseth já enfrenta pressões no Congresso. Em abril, deputados democratas apresentaram um pedido de impeachment contra o secretário, relacionando sua atuação na guerra ao Irã a acusações de “crimes graves e delitos menores”.

Embora a abertura de um processo dependa de maioria simples na Câmara, a destituição exige o apoio de dois terços do Senado. Até hoje, nenhum integrante do gabinete presidencial estadunidense foi removido por esse mecanismo.

O professor de ciência política David Miller, da American University, em Washington, avaliou à BBC que a exposição negativa provocada pelas investigações poderia levar Trump a demitir integrantes de sua equipe para reduzir o desgaste político.

“De certa forma, isso poderia ser uma vitória para os democratas”, afirmou.

Operações contra imigrantes também serão investigadas

A atuação do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) constitui outra frente de fiscalização planejada pelos democratas.

Robert Garcia, escolhido para liderar a atuação democrata na Comissão de Supervisão da Câmara, apontou a política migratória como uma das prioridades do partido. O objetivo será investigar denúncias de abusos e má conduta de agentes federais durante operações de fiscalização e deportação.

A questão apresenta desafios políticos para a oposição. Trump venceu a eleição presidencial de 2024 defendendo deportações em massa de imigrantes em situação irregular, proposta que recebeu apoio expressivo de seus eleitores.

Entretanto, pesquisas recentes citadas pela reportagem indicam crescente desconforto entre estadunidenses, inclusive eleitores republicanos, com determinados métodos utilizados pelo ICE.

Richard Painter, ex-responsável pela área de ética da Casa Branca durante o governo de George W. Bush, avaliou à BBC que os democratas precisarão conciliar a fiscalização de possíveis abusos com as preocupações da população sobre imigração.

Terceiro impeachment de Trump divide democratas

A possibilidade de abrir um terceiro processo de impeachment contra Donald Trump também ganhou espaço nas discussões internas do Partido Democrata.

A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, está entre os parlamentares favoráveis à iniciativa. Uma das justificativas apresentadas é a condução da guerra contra o Irã sem autorização do Congresso, além de outras possíveis infrações atribuídas ao presidente.

Parte da bancada, entretanto, considera que a medida poderá produzir desgaste político sem resultar na saída de Trump. A Constituição estadunidense exige o voto favorável de dois terços dos senadores para condenar e destituir um presidente.

Mesmo com maioria nas duas Casas, os democratas não teriam necessariamente votos suficientes para alcançar esse patamar. Também persistem divergências sobre quais acusações poderiam fundamentar um eventual processo.

Trump já reagiu publicamente à possibilidade de novas iniciativas para afastá-lo. Em outubro, durante uma conversa com jornalistas no Salão Oval, afirmou que poderia fazer o que quisesse e classificou como “coisas muito ilegais” as tentativas anteriores de impeachment e os processos criminais movidos contra ele.

Derrota republicana muda correlação de forças em Washington

A ofensiva democrata tornou-se possível após uma série de vitórias eleitorais em estados que haviam apoiado Trump na eleição presidencial de 2024.

No Texas, James Talarico, de 37 anos, derrotou o republicano Ken Paxton e rompeu uma longa sequência de vitórias conservadoras na disputa pelo Senado.

Os democratas também conquistaram resultados expressivos no Kansas, em Ohio e nas Carolinas do Norte e do Sul. Entre os vencedores estão Roy Cooper e Annie Andrews.

No Maine, a republicana Susan Collins, que ocupava uma cadeira no Senado desde 1997, reconheceu a derrota para o democrata Troy Jackson.

As vitórias garantiram à oposição o controle das duas Casas legislativas e alteraram substancialmente as condições políticas para a segunda metade do mandato presidencial.

Embora as investigações ainda não tenham começado e não exista garantia de que resultarão em punições, os democratas consideram que a fiscalização do Executivo será fundamental para limitar a atuação da Casa Branca.

Subramanyam defendeu que o partido não deixe de agir por receio de fracasso ou de consequências políticas. Segundo o parlamentar, a omissão poderia produzir efeitos negativos não apenas durante os próximos dois anos, mas também nas duas décadas seguintes.

Com o novo Congresso, Trump enfrentará uma oposição fortalecida, capaz de investigar integrantes de seu governo, contestar decisões militares, bloquear recursos e colocar sob escrutínio os interesses empresariais de sua família.

Aquiles Lins

BRASIL 247