Crise da dívida atinge 20 milhões de argentinos e Milei ignora tragédia social ao classificar calotes como ‘questão entre entes privados’
Mais de 6 milhões de cidadãos estão inadimplentes no país enquanto governo nega intervenção em juros abusivos que chegam a 1.500%
Uma grave crise de endividamento assola a Argentina, onde mais de 20 milhões de cidadãos possuem dívidas ativas e cerca de 6 milhões já se encontram em situação de mora — com pagamentos atrasados ou em total inadimplência. O cenário dramático revela que um a cada três habitantes do país enfrenta severas dificuldades para quitar compromissos financeiros assumidos com bancos, carteiras digitais, lojas e agiotas, informa a BBC News Brasil.
A gravidade do quadro levou centenas de cidadãos às ruas de Buenos Aires no último dia 20 de agosto para realizar a primeira marcha de endividados da história do país. Os manifestantes exigem mecanismos de refinanciamento e protestam contra a inação do governo do presidente Javier Milei, que recusa qualquer intervenção estatal. A postura oficial do Executivo argentino é a de tratar o estrangulamento financeiro da população estritamente como “uma questão entre entes privados”.
Milei minimizou publicamente o problema, atribuindo o boom do endividamento a um suposto excesso de compras de aparelhos de televisão durante a Copa do Mundo. Em entrevista ao jornal La Nación, o mandatário chegou a questionar se alguém havia colocado “uma pistola na cabeça” dos cidadãos para que se endividassem. Procurada pela BBC para comentar as declarações do presidente, a Presidência da Argentina não enviou resposta.
Histórias de colapso financeiro
A realidade das famílias argentinas contrapõe a narrativa governamental. A eleitora Eliana Yaynes, que apoiou Milei nas urnas há quase três anos, classifica a postura do presidente como surreal e degradante. Ela e o marido acumulam quatro empréstimos bancários. Antes da última operação, a dívida do casal ultrapassava 10 milhões de pesos (cerca de US$ 6.620 ou R$ 34,1 mil).
O marido de Eliana, Iván Venencio, relata que o descontrole financeiro da família começou em fevereiro de 2025. Durante uma viagem, o falecimento do sogro gerou custos inesperados com passagens aéreas no cartão de crédito. Nos meses seguintes, despesas médicas com a perda de uma gestação, a perda do emprego da esposa e o incêndio do veículo usado por ele para trabalhar como motorista de aplicativo soterraram o orçamento familiar.
Atualmente, o casal deve dezenas de milhões de pesos distribuídos em diversos cartões bancários. Venencio trabalha até 12 horas por dia ao volante apenas para cobrir os gastos básicos da casa, sem qualquer margem para amortizar os débitos. “Quando você começa a olhar os juros, aquilo se tornou totalmente impagável. Não tentamos mais negociar refinanciamento porque não podemos pagar”, lamenta.
Alimentação e tarifas impulsionam a inadimplência
Conforme dados elaborados por Hernán Letcher, diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), o dado mais alarmante da crise reside nos 6 milhões de inadimplentes há mais de 90 dias. Destes, cerca de 3,5 milhões (55%) possuem dívidas tecnicamente classificadas como irrecuperáveis.
Ao contrário da tese presidencial de compras supérfluas, executivos do setor bancário confirmaram ao Cepa que cerca de 90% dos atrasos em cartões de crédito são originados por compras em supermercados para a aquisição de alimentos. A perda de renda real dos lares, combinada com o expressivo aumento de tarifas públicas — em Buenos Aires, o metrô subiu 2.000%, os trens 1.800% e os serviços básicos 850%, enquanto os salários subiram apenas 300% —, empurrou a população para o crédito emergencial.
A escalada da precarização: das fintechs à agiotagem
A impossibilidade de obter novos empréstimos no sistema bancário tradicional tem jogado a população vulnerável nas mãos das fintechs e carteiras digitais, cuja penetração cresceu substancialmente no setor informal.
Segundo análise do diretor da consultoria Analytica, Claudio Caprarulo, o setor de aplicativos capta os trabalhadores sem carteira assinada sob a justificativa de “inclusão financeira”, aplicando taxas de juros extremamente elevadas. De acordo com o Cepa, enquanto a taxa bancária envolve custos expressivos, a migração para as carteiras digitais pode fazer o custo financeiro total saltar para astronômicos 1.500% ao ano.
O terceiro estágio do endividamento atinge a agiotagem informal. O secretário de Segurança da província de Buenos Aires, Javier Alonso, alertou que as cobranças ilegais têm gerado uma onda de violência, dobrando os índices de homicídios, tentativas de assassinato e ameaças ligadas a agiotas. Em apenas cinco meses, dívidas iniciais de 1 milhão de pesos (US$ 660 ou R$ 3,4 mil) chegam a ser recalculadas para 25 milhões de pesos (US$ 16.545 ou R$ 85,3 mil).
Pressão por socorro legislativo
Organizações como o movimento Endividadxs Organizadxs, liderado por afetados como Fernando Moyano, cobram a decretação de emergência de crédito nacional e a regulamentação dos juros praticados no país. Além das taxas abusivas, os devedores enfrentam o congelamento salarial e constrangimentos ilegais praticados por empresas terceirizadas de cobrança.
Embora o ministro da Economia, Luis Caputo, tenha admitido em coletiva de imprensa recente que as taxas entre 400% e 700% cobradas por serviços digitais são “obviamente abusivas”, o titular da pasta reafirmou que o governo não intervirá por se tratar de “uma questão entre entes privados”, arrematando que não se deve “confundir empatia com políticas públicas”. Diante da omissão da Casa Rosada, devedores e centrais sindicais articulam apoio a projetos de lei que tramitam no Congresso argentino.
Guilherme Levorato
BRASIL 247
