Colonos israelenses intensificam violência contra comunidades palestinas

01/02/2026 05h39 - Atualizado há 1 dia

Aumento do assédio realizado por grupos mascarados em aldeias na Cisjordânia forçou famílias a abandonar suas casas

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Divulgação

Suleiman Ghawanmeh está cansado de falar. Por mais de 10 anos, ele falou até ficar rouco, até perceber que suas palavras não podiam impedir que sua comunidade fosse expulsa.

Depois que seu último apelo por ajuda não surtiu efeito, ele também partiu.

“Estou com raiva do mundo… ninguém nos ouve… é como se não fôssemos seres humanos”, afirmou ele à CNN.

Sua aldeia, Ras Ein al-Auja, na Cisjordânia, foi apagada do mapa – esvaziada de seus moradores palestinos após uma campanha de assédio implacável por parte dos colonos, que durou anos e se intensificou nos últimos dois anos.

A violência contínua contra aquela que já foi a maior comunidade pastoril da Cisjordânia aumentou consideravelmente neste mês, forçando famílias a abandonar suas casas, segundo o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem.

Colonos armados e mascarados, muitos deles adolescentes, invadiam diariamente a comunidade de Ras Ein al-Auja, segundo moradores e ativistas, aterrorizando as quase 120 famílias extensas (mais de 800 pessoas no total) que ali viviam. No final de janeiro, o assédio os obrigou a todos a partir.

Ghawanmeh, de 44 anos, e sua família foram os últimos a sair, no domingo (25).

“Não fomos deslocados porque um pastor ou um colono nos atacou. Não. A questão é maior do que isso. O pastor é uma ferramenta – um instrumento da ocupação”, falou ele.

Ras Ein al-Auja é a 46ª comunidade pastoril na Cisjordânia a ser deslocada à força desde 7 de outubro de 2023, segundo a B’Tselem, que classifica isso como uma forma de “limpeza étnica”.

Em resposta ao aumento dos ataques de colonos no ano passado, o exército israelense declarou em comunicado que “considera a violência de qualquer tipo com severidade e a condena, pois prejudica a segurança na região”.

Mas não é assim que os moradores descrevem o papel dos militares no terreno.

Assédio contra comunidade piorou ao longo dos anos

Colonizadores judeus têm assediado os moradores de Ras Ein al-Auja desde 2010, segundo integrantes da comunidade.

Após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a subsequente ofensiva em Gaza, os moradores dizem que a situação só piorou.

Colonizadores construíram quatro novos assentamentos ilegais ao redor da vila desde abril de 2024, segundo o OCHA (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários), cercando casas palestinas.

Segundo moradores, ativistas e vídeos obtidos pela CNN, colonizadores, supostamente desses assentamentos, roubaram ou danificaram reservatórios de água, comprometendo o acesso da comunidade à água e prejudicando seu sustento.

Eles cortaram linhas de eletricidade, roubaram milhares de cabeças de gado e vandalizaram currais de ovelhas e propriedades palestinas – tudo com o apoio ou a inação do exército israelense.

A CNN foi até um dos quatro assentamentos para conversar com os colonizadores, mas dois homens se recusaram a responder às nossas perguntas.

“Não aceitamos jornalistas”, declarou um jovem colono israelense antes de nos expulsar da propriedade.

Outro colono chegou pouco depois e começou a filmar antes de chamar a polícia. Os dois se recusaram a responder perguntas sobre o suposto assédio aos palestinos em Ras Ein al-Auja.

Ghawanmeh disse que, se os colonos não tivessem o apoio do governo israelense e de muitos governos ao redor do mundo, sua comunidade não teria precisado partir.

Ele e seus irmãos passaram o dia inteiro desmontando suas casas, despedaçando painéis de metal para reconstruir em outro lugar – onde quer que encontrem um local para se estabelecer.

Mulheres e crianças empacotaram seus pertences, empilhando colchões e lonas em caminhonetes. Tudo o que não pôde ser transportado foi queimado.

“Não quero que eles se beneficiem de nada que seja nosso”, pontuou Ghawanmeh sobre os colonos.

Entre as tarefas árduas, homens pichavam as palavras “o último deslocamento 2026” e “a terceira Nakba” em galpões de metal – uma referência à Nakba, ou “catástrofe”, de 1948, quando aproximadamente 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas no que hoje é Israel.

A própria família de Ghawanmeh foi deslocada de uma aldeia perto de Be'er Sheva, no sul de Israel, naquela época e transferida à força para Ramallah.

Eles foram deslocados novamente em 1967, após a Guerra dos Seis Dias.

Agora, forçados a deixar suas casas pela terceira vez, estão acampados a cerca de três quilômetros de sua aldeia, sem saber para onde irão em seguida.

Israel tenta exercer controle sobre terras em territórios ocupados

Ras Ein al-Auja está localizada no sul do Vale do Jordão.

Em junho de 2024, Israel declarou cerca de 3 mil acres do Vale do Jordão, incluindo Ras Ein al-Auja, como terras estatais, a maior apropriação de terras palestinas desde os Acordos de Oslo, segundo a organização israelense de monitoramento dos assentamentos, Peace Now.

Isso significa que a terra não é mais considerada propriedade privada dos palestinos e, portanto, eles estão impedidos de usá-la ou acessá-la.

A Peace Now afirma que este é “um dos principais métodos pelos quais o Estado de Israel busca exercer controle sobre as terras nos territórios ocupados”.

Haitham Zayed, de 25 anos, que viveu em Ras Ein al-Auja a vida toda, falou que o que aconteceu com sua aldeia faz parte de uma “política sistemática” do governo israelense para “esvaziar as terras palestinas de palestinos”.

Duas semanas atrás, quando algumas famílias de sua aldeia começaram a partir devido à intensificação da intimidação por parte dos colonos, ele jurou ficar.

“Você acha que se eu for para outro lugar, estarei a salvo dos colonos ou do exército? Não existe lugar na Cisjordânia que seja seguro contra os colonos ou o exército”, disse ele na ocasião.

Dois dias depois, ele disse à CNN que não tinha outra opção a não ser partir.

“Não há mais vida em Ras Ein al-Auja”, escreveu ele em uma mensagem de texto. “Estamos revivendo a Nakba.”

Zeena Saifi, Jeremy Diamond e Cirilo Teófilo, da CNN