Violência bolsonarista cresce no País: assassinatos, agressões e ameaças se multiplicam após a derrota para Lula

31/10/2026 05h36 - Atualizado há 57 minutos

Polícia investiga 10 crimes de morte e 45 atos violentos em que bolsonaristas são suspeitos; prática rejeitada pela sociedade direciona corrente do clã miliciano para novas derrotas; abrandar penas de Jair Bolsonaro e demais golpistas incentiva radicais

Cb image default

Crédito: Redes sociais

O bolsonarismo precisa se emendar, o que soa como impossível. Entre todos os diagnósticos sobre a derrota que surpreendeu Flávio Bolsonaro e o alto comando de sua campanha, no traço comum das análises sobressai o voto em Lula pelo medo do que os bolsonaristas seriam capazes de fazer com o Brasil, suas pessoas e suas riquezas. É justificado pelo que se teve no governo Jair Bolsonaro (2019-2022), de berço político nas milícias do Rio de Janeiro e prática de incentivo à violência na sociedade, como se viu em sua política armamentista.

As duas últimas eleições presidenciais, nas quais Lula bateu o pai e, com maior diferença de votos, o filho 01, deixam clara a rejeição do público à violência bolsonarista. Essa corrente da política brasileira dificilmente terá outra vitória em disputa ao Palácio do Planalto a prevalecer o modelo de ódio, ameaças e atentados que seus militantes adotam. De resto, incentivado e corroborado pelo clã e disseminado em suas bases.

A violência intrínseca ao bolsonarismo precisa ter fim. Na contramão da discussão sobre abrandamento de penas para Bolsonaro e os golpistas de 8 de janeiro, o adequado para a democracia brasileira é a manutenção das punições tal como estão. Esse sim seria um sinal de seriedade da democracia brasileira. A questão de penas menores para os bolsonaristas presos não faz parte da agenda popular. E quando entrou em pauta, nas promessas do candidato Ronaldo Caiado e, claro, do próprio Flávio Bolsonaro, aliados em segundo turno, foi duplamente rechaçada.

Desde o sábado, 24, na véspera da eleição, as autoridades contabilizaram nada menos do que dez assassinatos relacionados à disputa presidencial e 45 casos de violência política. Entre os mortos estão três indígenas. As investigações, em andamento, partem de fortes suspeitas de envolvimento de bolsonaristas. Eles de fato parecem se orgulhar de odiar o próximo.

Ao longo da semana, em lugar de um civilizado reconhecimento da derrota, os seguidores dos Bolsonaro começaram um movimento entre empresas comerciais de incentivo a demissões de funcionários petistas. A perseguição à la Gestapo, a polícia política nazista, logo apoiada pelo ardiloso deputado Nikolas Ferreira, de gols contra a candidatura bolsonarista muito comemorados pela torcida do PT. Com efeito, personagens como ele e a administradora Daniella Marques, que queria virar uma imperadora da economia brasileira, ajudaram muito, sem querer, a causa democrática.

Nesta sexta-feira (30), o colunista Ancelmo Gois registra que um perfil criado por alunos da escola Sap, da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ficou abarrotado de mensagens de estudantes atacando os próprios colegas identificados como tendo votado em Lula. Abaixo de uma imagem dos jovens eleitores, o @sapfofocanews elenca comentários ofensivos sobre a condição social deles e de suas famílias. “Devem ser pobres e não sabem de nada”, “isso é coisa de pobre”, “já viu a casa dele? Mora na Barra, mas a casa é de pobre” e “meninas nojentas” foram algumas das mensagens. É difícil até mesmo reproduzir, mas é importante para que se entenda o grau de incivilidade.

Na elite bolsonarista, as agressões continuam sendo uma postura corriqueira. Na quarta-feira (28), a médica Mirna Noia, casada com o ex-prefeito de Patos (PB) Dinaldo Filho, apareceu em sua própria página no Instagram com um boné com os dizeres “Make Janja quenga again”. O perfil dela, após a postagem, foi tomado por críticas e ataques vindos da direção contrária. Mirna reclamou: “o ódio que as pessoas destilam fala muito mais sobre elas do que mim”. Não. A frase de espanto pela reação das pessoas é apenas um jogo de palavras. Baixa e gratuita, a provocação partiu da própria Mirna. A violência bolsonarista tende a gerar violência.

Durante a eleição, instalações de universidades e igrejas católicas incendiadas e vandalizadas, quebras de imagens de Nossa Senhora Aparecida e cenas de militantes bolsonaristas ameaçando democratas se multiplicaram. Todo esse pacote ajudou a incutir o medo na população contra ele e seu representante Flávio Bolsonaro.

Agora, na política, quem já começa a ser ameaçado pelos bolsonaristas ensandecidos é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele se colocou, em entrevista a O Estado de S. Paulo, como postulante a presidente da República em 2030. Normal. Tarcísio já teria sido o candidato da direita, e da extrema-direita, no pleito que acaba de se encerrar, não fosse a ordem superior de Jair Bolsonaro em favor de Flávio.

Anormal, ou nem tanto, considerando-se o histórico, foi a reação de um ‘interlocutor direto’, segundo a jornalista Bela Megale, em mensagem sem rodeios ao governador aliado. “Vamos ter que trabalhar parte da militância mais radical para contornar a resistência contra Tarcísio. Conseguiu irritar esse grupo do nosso campo, e espero que ele corrija sua rota”, disse o bolsonarista. Sim, vinda de quem veio, a frase foi uma ameaça.

O bolsonarismo só sabe viver pelas vias da violência, ameaça e pressão. Não tem programa, projetos ou entregas. Enquanto incentivar crimes e não construir uma pauta civilizada para a sua atuação, a tendência é definhar e sobreviver por espasmos.

AutorMarco Damiani

Marco Damiani é editor especial do Brasil 247