Tarifaço: a conexão Trump-Bolsonaro que custa bilhões ao Brasil
Enquanto o setor produtivo calcula o prejuízo da nova taxa de 25%, Flávio usa a crise comercial como munição para a corrida presidencial
Países não têm amigos, mas interesses. E quando interesses de uns e de outros entram em choque, eles tentam negociar ou então vão à guerra. Pode ser por meio de aplicações de tarifas mútuas, que levem o lado mais fraco a ceder, embora ele nem sempre ceda. Pode ser também por meio de armas, o que produz mortes.
No momento, os Estados Unidos combatem nos dois terrenos: o comercial, via imposição de tarifas a quase todos os países do mundo sem poupar sequer seus aliados históricos, e o sanguinolento, haja vista o que se passa no Oriente Médio, onde o Irã continua debaixo de fogo letal e reage atacando bases militares norte-americanas.
As relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos têm mais de 202 anos. Elas começaram em 26 de maio de 1824, quando os Estados Unidos reconheceram oficialmente a independência do Brasil, proclamada dois anos antes por Dom Pedro I. O Brasil e os Estados Unidos nunca guerrearam entre si.
De lado a lado, barreiras comerciais e disputas tarifárias ocorrem continuamente por meio de centenas de processos individuais de antidumping, subsídios e medidas de salvaguarda. No entanto, a imposição de pacotes generalizados de sobretaxas (os chamados “tarifaços”) só se deu em ocasiões muito marcantes.
Há cerca de 40 anos, durante o governo de Ronald Reagan, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 100% sobre diversos eletrônicos e produtos manufaturados brasileiros como retaliação à chamada “Lei de Informática”, que restringia a entrada em nosso mercado de computadores americanos. Pressionado, o Brasil recuou.
Sob a administração de Donald Trump, em agosto do ano passado, os Estados Unidos aplicaram uma taxação de 50% sobre mais de 3,8 mil itens brasileiros, incluindo café, calçados e tecidos. Parte dessa cobrança sobre itens agrícolas foi revogada temporariamente em novembro daquele ano por decisão da Suprema Corte americana.
Ontem, o governo americano oficializou uma sobretaxa de 25% baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A medida atinge produtos como açúcar de cana, etanol, gasolina e máquinas pesadas. Ficaram de fora da lista grandes motores da pauta brasileira de exportação, como suco de laranja, carne bovina, café e aviões.
Vida que segue — ou que seguiria —, se por trás do novo tarifaço não estivesse o desejo indisfarçável de Trump de influir nos resultados das eleições brasileiras de outubro próximo para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Somente este ano, Flávio foi seis vezes aos Estados Unidos para suplicar ajuda a Trump.
Quando do tarifaço de 2025, Trump escreveu uma carta a Lula ordenando que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendesse “imediatamente” o julgamento dos golpistas do 8 de janeiro, entre eles Jair Bolsonaro. Se não bastasse, proibiu a entrada nos Estados Unidos de ministros do STF e do governo federal.
A essa altura, não há mais como descolar a imagem dos Bolsonaro dos tarifaços de Trump. O de agora atinge diretamente US$ 7,4 bilhões em mercadorias (cerca de 18% de tudo o que o Brasil vende para os Estados Unidos), gerando uma perda potencial de até US$ 11 bilhões (cerca de R$ 52 bilhões) nas exportações brasileiras.
Em vídeo postado nas redes sociais, Flávio culpou Lula pelo tarifaço e não se opôs a ele para não desagradar a Trump. Pelo contrário: reproduziu parte da fala de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, que disse:
— Lula não negociou de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ele colocou seu ego à frente de um acordo, e essas tarifas são o preço por isso.
Ricardo Noblat - CNN
