Flávio usa fake news para pautar imprensa e desviar atenção de investigação

29/10/2026 05h53 - Atualizado há 1 hora

Carta mentirosa reúne título inventado, heróis emprestados e promessa de novos capítulos, roteiro que pautou a imprensa em horas

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Joe Raedle/Getty Images

A carta que Flávio Bolsonaro publicou nesta quarta-feira (28/10) não traz nenhum fato novo e muitas mentiras. A derrota para Lula já estava proclamada desde domingo. A ida para os Estados Unidos já era conhecida. A ordem de Alexandre de Moraes para que entregasse o passaporte também. Mesmo assim, em poucas horas, os principais sites do país estampavam a mesma frase na manchete, “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. A expressão é do próprio senador.

É assim que o texto funciona. Puro marketing da mentira a começar do brasão com Brazil com z. Cada parágrafo foi escrito para virar notícia, mesmo quando não se tem o que noticiar.

O título como isca

O cargo de “presidente eleito” é um ato do TSE, e o TSE proclamou Lula com 51,79% dos votos válidos. Ao se dar o título, Flávio cria uma frase que a imprensa precisa reproduzir, nem que seja para contestá-la. A manchete repete o título. A correção vem depois, no corpo do texto, lida por bem menos gente.

A acusação apoiada na própria palavra

Sobre Moraes, a carta afirma que o ministro está implicado num “imenso escândalo de corrupção” e que “muito provavelmente estaria preso” se Flávio tivesse tomado posse. Fica tudo na afirmação. Uma acusação desse tamanho gera reação do tribunal, de aliados e de adversários, e cada reação vira nova notícia. É o que ele deseja. Tentar controlar uma narrativa. Alexandre de Moraes está sob suspeita sim no caso Vorcaro, e precisa responder por seus atos, mas atuação no processo que prendeu Jair Bolsonaro e os criminosos do 8 de janeiro, por tentativa de golpe, foi exemplar. Assim como a atuação ao pedir o passaporte de Flávio.

Heróis emprestados

Ruy Barbosa, Charles de Gaulle, José Martí, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado. A lista garante uma segunda rodada de cobertura, a das comparações. De Gaulle foi condenado à morte por um regime colaboracionista dos nazistas. Martí morreu em combate contra o colonialismo espanhol. Flávio recebeu ordem para entregar o passaporte. A distância entre as histórias rende análises, checagens e memes, e todas mantêm o nome do senador em circulação.

Padrinhos estrangeiros

O primeiro parágrafo depois da autoproclamação agradece a Javier Milei e a Donald Trump. A citação leva o caso para fora do país e convida a imprensa internacional a perguntar a Washington e Buenos Aires se reconhecem o senador. Na carta, ele agradece apenas pela acolhida.

Símbolos de Estado

O topo da página traz o brasão da República, em uma versão de antes de 1931, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O símbolo dá ao texto aparência de documento oficial. A grafia antiga rendeu mais uma pauta.

A promessa do próximo capítulo

A carta termina anunciando continuação. Flávio diz que vai se dirigir “regularmente” ao povo brasileiro e que apresentará “uma estratégia” para mobilizar a oposição. É o formato de série, em que cada episódio garante espaço para o seguinte.

O palco já estava montado

O irmão Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde 2025 e faz oposição de lá. Dois dias antes do segundo turno, sugeriu numa entrevista a um programa americano que Flávio deixasse o Brasil caso perdesse. Foi essa fala que Flávio apontou como base para a ordem de Moraes. Três dias depois da eleição, o roteiro anunciado pelo irmão estava cumprido.

O que sai da pauta

Enquanto se discute a mentirosa fala de Flávio sobre a presidência sobra menos espaço para o que o levou a ser investigado. O ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, conduz o inquérito sobre os US$ 24 milhões que Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme “Dark Horse”. A PF apura se emendas ou projetos do senador favoreceram o banco. Em outra frente, ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro com apostas esportivas ao lado do advogado Willer Tomaz. Foi nesse inquérito que Moraes mandou recolher seu passaporte. A carta trata todas essas apurações como “caça às bruxas” e segue adiante.

O que diz Flávio

Na carta, o senador afirma que saiu do Brasil para liderar a oposição com liberdade e que dirá dos Estados Unidos o que os aliados no país têm medo de dizer. Promete agir “por todos os meios pacíficos e legítimos”. Ele contesta as suspeitas que pesam contra si, e os inquéritos seguem em andamento, antes de qualquer denúncia da PGR.

A próxima carta já foi anunciada. O desafio da cobertura é noticiá-la pelo que ela traz de fato. E não por duas incontáveis mentiras.

Matheus Leitão

METRÓPOLES