Flávio agride o Brasil para fugir do “Dark Horse”. Não caiam na pilha!

30/05/2026 05h49 - Atualizado há 1 hora

O risco maior com designação de organizações criminosas como “terroristas” é de natureza econômica. Cuidado com a língua de gato envenenada!

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Divulgação

Flávio Bolsonaro, aquele que pegou alguns milhões de dólares de Daniel Vorcaro para supostamente financiar o tal filme e, segundo Valdemar Costa Neto, voltou depois para tentar tomar o resto, estava exultante nesta quinta: Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, anunciou que PCC e Comando Vermelho passaram à condição de FTO: “Foreign Terrorist Organizations” — integram, agora, a lista de organizações terroristas estrangeiras que representariam uma ameaça à, digamos, “grandeza da América”. O vendedor multimilionário de “língua de gato” e “lajotinha” quer que falemos sobre o assunto. Se o governo e os progressistas caírem na pilha, os US$ 24 milhões que o exaltador de miliciano pediu ao ex-dono do Master vão para o esquecimento…

Flávio gravou um vídeo, que está nas redes sociais. Trai aquela, vamos dizer, “marca da sinceridade” de tudo o que faz este notável senhor. Bem, o excesso de canastrice não impediu seu pai de ir longe. Coisa desses tempos. Acusou Lula de rastejar para Trump para impedir essa decisão. Nós vimos bem quem dialoga com o presidente norte-americano sobre dois apoios e quem o faz sobre quatro. Não! A decisão não é irrelevante para o Brasil. O risco principal não é o de uma intervenção militar. Os que mais podem sentir os efeitos da medida destrambelhada são “uzmercáduz” — parte deles vê esse irresponsável como uma alternativa a Lula.

QUEREM INTERVENÇÃO NORTE-AMERICANA

Não é de hoje que a família clama por uma intervenção dos EUA no Brasil. A carta que Trump endereçou a Lula no dia 9 de julho do ano passado, em que, na prática, ousava exigir que o presidente brasileiro determinasse que o STF extinguisse o processo contra Jair Bolsonaro, tinha esse caráter. O Doidão não sabe como as coisas funcionam por aqui.

Cumpre lembrar que o mesmo texto anunciava que o Escritório de Representação Comercial dos EUA abriria uma investigação contra o Brasil, com base na tal Seção 301, por práticas comerciais desleais. O principal alvo era e segue sendo o pix — com o qual o dito Zero Um está disposto a presentear Trump.

PCC e CV são organizações criminosas poderosas e deletérias, com braços hoje em outros países, mas terroristas não são. É simples assim. Essa designação é irrelevante, e até contraproducente, no combate aos criminosos, a menos que se apele, de fato, a uma intervenção estrangeira, o que Flávio, com efeito, chegou a sugerir em seu pronunciamento depois dos cinco minutos com Trump. Estaria Flávio a imaginar uma ocupação das favelas do Rio — a área das milícias não… — por forças estrangeiras? Quem sabe um bombardeio…

A propósito: no dia 23 de outubro do ano passado, o agora “presidenciável” repostou uma mensagem de Pete Hegseth, Secretário da Guerra dos EUA, que trazia a imagem de uma embarcação oriunda da Venezuela sendo bombardeada e escreveu no X, em inglês:

“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”

Vá lá…

QUEM É FLÁVIO

Flávio poderia não ser o cara que condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega. Mas ele o é. Poderia não ser o cara que empregou a mãe a mulher de tão notável patriota em seu gabinete, pagas que foram pelo esquema da “rachadinha”, administrada por Fabrício Queiroz, mas ele o é. Poderia não ser, na prática, o chefão oculto da segurança pública do Rio desde governo Witzel até a renúncia de Cláudio Castro, mas ele o é. Poderia não ser o Grande Sacerdote da Zona Oeste, mas ele o é. Ou por outra: essa sua conversa sobre segurança pública poderia, ainda que errada, ser sincera. Mas não é. No mais perto e no mais alto que o Comando Vermelho chegou na hierarquia do Estado, contou, segundo as investigações, com a militância do agora deputado cassado e preso Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa. Flávio e Bacellar eram amigos de fé, irmãos, camaradas. Estavam um tanto distantes quando este caiu em desgraça, mas não por causa dos vínculos do ex-parlamentar com o Comando Vermelho.

Lula é chefe de estado e pode e deve manifestar a sua contrariedade com a decisão, até porque ela expõe o país a sanções, sem que implique colaboração efetiva — que é necessária — no combate ao crime organizado.

O país pode sofrer prejuízos efetivos. Em excelente artigo publicado na Folha, o advogado Welber Barral explica:

“Quando os EUA classificam uma organização como FTO (Foreign Terrorist Organizations, ou organização terrorista estrangeira), ativam o mecanismo previsto na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade (Immigration and Nationality Act).

A consequência mais importante (18 U.S.C. § 2339B): torna-se crime federal prestar ‘suporte material’ à organização designada. E suporte material é interpretado de forma amplíssima. Inclui financiamento, logística, treinamento, serviços, consultoria, transporte e qualquer apoio econômico direto ou indireto.

Na prática, isso aumenta imediatamente os riscos para negócios. Bancos, seguradoras, fundos de investimento, empresas de logística e multinacionais passam a tratar operações vinculadas ao país afetado como juridicamente arriscadas.

(…)

No Brasil, os efeitos podem ser ainda mais perversos, porque o PCC e o CV não operam apenas em territórios marginais. O problema deixa de ser policial e passa a ser sistêmico.

Em caso de dúvida, o capital simplesmente vai embora. Há ampla literatura econômica mostrando esse efeito. Estudos clássicos de Todd Sandler e Walter Enders demonstraram que a presença persistente de terrorismo reduz significativamente o investimento estrangeiro direto.”

Para tentar sair das cordas, Flávio e sua turma não hesitam em arriscar o futuro do país. E não deixa de ser irônica que a decisão estúpida seja anunciada justamente quando a Polícia volta à Faria Lima à caça de lavadores de dinheiro do crime organizado. O candidato tem um plano para o Brasil: entregar as terras raras a Trump, submeter a segurança interna aos EUA e trancafiar crianças de 14 anos…

Em entrevista a este “Metrópoles”, o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, principal autoridade no combate ao PCC, adverte que a nova designação pode é atrapalhar o combate às facções porque, nos EUA, o enfrentamento do terrorismo é assunto afeito principalmente à CIA e às Forças Armadas. Ele diz:

“Conversei com alguns policiais do FBI sobre essa classificação, e alguns deles têm receio de que aconteça uma mudança na classificação das informações. Elas poderiam ser classificadas como secretas, o que traria uma dificuldade no compartilhamento com outras autoridades.”.

A bandidagem ainda será grata aos Bolsonaros. Mais uma vez.

CUIDADO!

Além de tentar tirar “Dark Horse” da pauta, Flávio e sua grei querem aprisionar o tema da soberania na cela em que estão os líderes do PCC e do Comando Vermelho. Se Lula, o governo e os progressistas resolverem comprar essa pauta, viram reféns da fuleiragem produzida pela extrema direita. Que as negociações sejam conduzidas pela diplomacia. É preciso, como diriam os psicólogos behavioristas, “cortar a reação”. Que fiquem se regozijando sozinhos. Quando houver um prejuízo efetivo para o país, e haverá, que se apontem os responsáveis. E que a Polícia Federal continue a fazer o seu trabalho contra a bandidagem, que o bolsonarismo armou até os dentes.

Reinaldo Azevedo

METRÓPOLES