A hora da besta: incentivar consumo de detergente sob suspeita é crime
Se o bolsonarista militante fizesse mal só a si mesmo, seria um direito. Mas não é assim. A luta principal ainda é contra a barbárie
Bebe detergente, bolsonarista;
bebe detergente!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão detergente.
Vou ser punido pelo deus que cuida da Fonte de Hipocrene. Ou, então, levarei um coice de Pégaso por fazer o que fiz, apelando a versos de Fernando Pessoa no célebre “Tabacaria” .
Lá está escrito:
“Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.”
Trata-se de um poema do heterônimo Álvaro de Campos que soma a um só tempo o fatalismo das coisas como são e o desconsolo de quem assim não as queria, mas não o suficiente para sair de sua mansarda. Obra de gênio. Flávio Bolsonaro talvez até ache imprópria a adaptação que fiz. Certamente diria que a metafísica está nos chocolates — além, claro!, de tudo o que lhe deram de físico e palpável…
Resistirei ao desencanto, mesmo com bolsonaristas mobilizados nas redes contra a Anvisa, a apontar severos fantasmas da tentativa de dominação ideológica onde há apenas decisão técnica.
“E por que o produto foi interditado num dia e liberado no outro?” Não se deu assim. A lei 9.782, um mau texto, permite que a interdição seja suspensa por mero recurso administrativo, sem juízo de mérito. A Ypê, de toda sorte, escolheu manter paralisada a produção. É importante destacar que está em vigor o alerta da agência. Mais: a tal bactéria “pseudomonas aeruginosa” foi identificada pela própria empresa em novembro de 2025, e foi ela a recolher um lote de produtos.
A Anvisa fez a coisa certa diante da constatação do risco. Cumpriu seu papel. Obviamente, não há nada de ideológico na decisão. O diretor responsável pela área foi indicado por Jair Bolsonaro. A fiscalização, lembrou o ministro Alexandre Padilha (Saúde), acontecia havia muito tempo e contou com a participação também de técnicos da área do governo de São Paulo. Tarcísio de Freitas poderia deixar isso claro. Mas, obviamente, não vai. Ele não tem coragem de afrontar a barbárie bolsonarista. Prefere ser seu parceiro.
A campanha antivacina está de volta. Se, antes, não acreditavam no vírus ou no imunizante, agora tratam um parecer técnico como se fosse manifestação ideológica e, de maneira irresponsável, estimulam as pessoas a consumir o produto. Figurões da vida pública lá estão lavando a sua loucinha, com a cara da impostura: o senador Cleitinho (Republicanos), pré-candidato ao governo de Minas; o coronel Mello Araújo (PL), vice de Ricardo Nunes; o empresário Luciano Hang, entre outros. Michelle também postou um frasco do detergente.
TESE CONSPIRATÓRIA E CRIME
Como os controladores da Ypê já revelaram simpatia por Bolsonaro e fizeram doação à sua campanha, então tudo isso seria não mais do que uma conspiração. Nas redes, pessoas apareceram bebendo um líquido grosso num frasco da marca — se era ou não detergente, não sei. E Deus segure a minha mão — porque pretendo continuar a não me deixar contaminar pela bactéria das paixões cruentas — para que eu não torça para que aquilo fosse… aquilo.
Há um grande esforço, inclusive em setores da imprensa, hoje em dia, para normalizar o crime como coisa da vida — aqueles, bem entendido, que venham imantados pela ideologia.
Ora, existe um alerta da Anvisa. O risco da contaminação é real. Se personagens da vida pública que têm representação parlamentar ou presença na mídia e nas redes incentivam a que se ignore o alerta e, mais do que isso, estimulam que as pessoas entrem em contato com o produto, parece-me que incidem em crimes tipificados no Código Penal, a saber:
“Artigo 268: Violar determinações do poder público destinadas a impedir a introdução ou propagação de doenças contagiosas também é crime, com pena de detenção de um mês a um ano, além de multa.”
Como o alerta existe e como, deliberadamente, concorrem para que o germe eventualmente provoque contaminação, também se deve evocar o Artigo 267, bem mais grave:
“Causar epidemia mediante a propagação de germes patogênicos é crime grave, com pena de 10 a 15 anos de reclusão. Se o ato resultar em morte, a pena é aplicada em dobro.”
No caso do artigo acima, note-se: há, quando menos, o dolo eventual. Quem resolveu fingir que estava lavando a sua loucinha — “enquanto mordomos invisíveis administram a casa” (by Fernando Pessoa de novo) — decidiu, de caso pensado, correr o risco (alheio!) de produzir o resultado. Se acontecer, a cana tem de ser pesada, em regime fechado. É impressionante, aliás, que Jair Bolsonaro, ele próprio, não tenha respondido por tais crimes no caso da Covid-19.
A besta segue desperta. Ela não foi dormir. Encontra-se por aí quando Flávio Bolsonaro concede entrevistas e não é indagado sobre a ameaça golpista que fez em conversa com a Folha no dia 14 de junho. Está entre nós quando próceres do bolsonarismo distorcem uma decisão sanitária para produzir mentira e barbárie civilizatória, alèm de crimes.
E quanto a beber detergente? Olhem, na hipótese de que tenha acontecido e de que tenha sido um ato militante, resta-me citar “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus: “Só existe um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. Todo o resto — se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias — vem depois. São jogos; é preciso primeiro responder.”
Ocorre que, infelizmente, haverá muita gente comum, sem nenhum espírito militante — inclusive crianças com acesso às redes — que pode fazer a mesma coisa. Quantos, por exemplo, marcharam para a morte durante a pandemia porque não viram mal nenhum em aglomerações e tomaram a cloroquina na certeza de que estavam protegidas? A luta principal, não tem jeito, segue sendo contra a barbárie. Seus promotores e porta-vozes não bebem detergente e, claro!, são parceiros da besta.
Reinaldo Azevedo
METRÓPOLES
